Movimento gay russo tenta burlar repressão social

Além de impor multas e prisão, lei que pune propaganda homossexual diante de menores, promovida por Putin, estimula clandestinidade

Andrei Netto, enviado especial, São Petersburgo, Rússia, O Estado de S.Paulo

15 de setembro de 2013 | 02h10

A guinada de repressão do governo de Vladimir Putin na Rússia está transformando a vida e conferindo um ambiente de clandestinidade a atividades cotidianas dos homossexuais. Há um ano, a cena gay de São Petersburgo contava com uma série de boates, saunas e clubes em uma única região da cidade, entre as estações de metrô Sadovaya, Chernyshevskaya e Ligoveski Prospekt.

Com a lei que em junho proibiu a "propaganda homossexual diante de menores", a maior parte desses bares discretos, alguns dos quais exigem licença para entrar, tem público em queda.

A perda paulatina de afluência do público homossexual na segunda cidade mais importante da Rússia deve-se ao receio crescente de prisões arbitrárias e ataques violentos, dizem os frequentadores. A forma como o governo de Vladimir Putin trata de reprimir a orientação sexual no país estaria abrindo caminho para a ação repressiva da polícia, para o aumento do preconceito social e até para a ação de grupos de extrema direita que têm na luta contra a homossexualidade uma de suas razões de existir, e na agressão, seu método.

O refluxo começou a se acentuar com o retorno de Putin ao poder, em substituição a Dmitri Medvedev. Em março, quando o presidente da França, François Hollande, obteve no Parlamento a aprovação de seu projeto de lei que legalizava o casamento e a adoção entre pessoas do mesmo sexo, Putin enviou um sinal e anunciou a suspensão de todas as adoções de crianças russas por pais franceses.

Guinada. Após décadas de alguma tolerância com o movimento gay (mais informações nesta página), o governo sancionou em junho a lei que proíbe a "propaganda homossexual diante de menores", impondo multas ou penas de prisão para quem, por exemplo, ostentar a bandeira colorida do movimento. Na prática, fazer uma parada gay ou um ato isolado de protesto pode ser enquadrado como crime.

Em 2 de agosto, em São Petersburgo, o militante homossexual Kirill Kalugin virou um dos símbolos da repressão ao ser filmado sendo dominado com violência por soldados que participavam do dia da festa nacional do corpo de paraquedistas das Forças Armadas.

O vídeo - que mostra também a posterior prisão de alguns dos militares, que usavam boina azul e camisetas listradas de mangas cavadas -, foi parar nas redes sociais e roda o mundo como prova ostensiva da homofobia.

Alex, forma como o blogueiro Aleksander K. prefere ser chamado - não ser identificado foi uma condição para a entrevista -, costumava recensear e divulgar os points da noite gay de São Petersburgo em seu blog na internet. Um de seus favoritos era o Crusing Club Bunker, em um prédio discreto acessível pela Rua Borondinskaya.

"Putin age como um fascista", disse ele ao Estado. "Diz que é pelo bem da família russa, mas não passa de uma desculpa para reprimir quem tem 'orientação sexual não-tradicional', como ele diz. Eu não sou não-tradicional, eu sou gay. E tenho o direito de ser."

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