Guy Trebay/ The New York Times
Guy Trebay/ The New York Times

Movimento negro denuncia injustiça policial nos EUA 

De acordo com historiador, Black Lives Matter tem mudado a maneira como os americanos encaram as abordagens da polícia 

Renata Tranches , O Estado de S. Paulo

23 de julho de 2016 | 20h00

Com objetivos muito definidos, mobilização nas ruas e mensagem amplificada pelas redes sociais, o grupo Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) tornou-se um dos movimentos sociais mais importantes dos EUA na atualidade. Com grande apoio da população, segundo analistas, suas ações estão mudando um discurso americano de “criminalidade de negros” para a “injustiça da brutalidade policial”. 

O movimento nasceu nas redes sociais em 2013 como a hashtag #Blacklivesmatter logo após o veredicto que inocentou o segurança George Zimmerman de matar o menino negro Trayvon Martin. O rapaz, de 17 anos, estava desarmado e foi morto com um tiro disparado contra seu peito em fevereiro de 2012 no Estado da Flórida. 

A decisão judicial despertou a indignação e milhares foram para as ruas em protesto, naquele que seria o início de uma onda de manifestações que está mudando a forma como os americanos veem a questão da violência policial no país. 

Segundo o historiador da Texas Tech University Matthew Johnson, especializado em movimentos sociais e implementação dos direitos civis nos EUA, por décadas, os grupos que desafiaram as práticas policiais e as leis punitivas contra negros no país não conseguiam amplo apoio. 

“O que é tão significante sobre esse movimento (Black Lives Matter) é que, apenas uma década atrás, as pessoas que sofriam com a brutalidade policial eram simplesmente endemoniadas pela grande mídia como criminosos”, afirmou Johnson, em entrevista ao Estado. “O Black Lives Matter tem mudado essa percepção, chamando a atenção dos americanos para as práticas injustas da polícia.” 

Um estudo da Escola de Comunicação da American University, em parceria com pesquisadores da New York University e da University of North Texas, mapeou a atuação do movimento nas redes sociais e concluiu que um dos principais pilares de seu sucesso é a capacidade de se articular nas redes sociais, levando sua narrativa ao público sem passar pela grande mídia. 

No entanto, o estudo diz que somente isso não seria suficiente. As novas mídias ajudaram a dar voz a uma mobilização que já estava nas ruas e tem objetivos muito específicos. Ele compara, por exemplo, a movimentos como a Primavera Árabe, que buscava derrubar governos, ou o Occupy Wall Street, com críticas ao capitalismo. “O Black Lives Matter demanda formas específicas de reparação de uma questão política, legal e policial muito bem definida”, afirma o estudo. 

Expansão. Depois de se tornar um movimento oficial, o Black Lives Matter passou a se organizar nacionalmente. Há pelo menos 30 ramificações nas cidades americanas com demandas muito específicas. As reivindicações se adaptam à realidade de cada uma delas. Na região de San Francisco, por exemplo, seus ativistas fazem campanha com outros grupos para o aumento do salário mínimo para US$ 15 a hora – atualmente em US$ 10. 

A crítica do historiador é que nem todos os que militam no movimento compreendem essa nuance que vai além da violência policial. “A brutalidade policial é uma questão muito importante, mas é uma parte de um grande sistema que tem prejudicado as comunidades afro-americanas.”

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