Movimento Verde espera a chance de ressurgir

Apesar de a resistência no Irã ter sido sufocada em 2009, ela continua inserida na vida pública e tem sido moralmente vingada nos últimos anos

AKBAR, GANJI, GLOBAL VIEWPOINT, O Estado de S.Paulo

13 de junho de 2014 | 02h00

Ontem comemoramos o quinto aniversário da criação do Movimento Verde, democrático, do Irã. Apesar de a resistência deste movimento ter sido sufocada, ele tem sido moralmente vingado neste intervalo de tempo e continua inserido na vida pública do Irã, pronto para emergir novamente quando houver oportunidade.

E esta oportunidade certamente se apresentará. A República Islâmica do Irã é um híbrido de ditadura religiosa e eleições competitivas, o regime cria sua própria oposição, procurando se equilibrar entre conservadores e reformadores. Um dia a balança do poder penderá decisivamente em favor da democracia e contra os aiatolás.

E é exatamente porque eleições competitivas dentro de uma ditadura religiosa são tão importantes que o escrutínio realizado há cinco anos foi tão vigorosamente contestado.

Em 12 de junho de 2009 foi realizada a 10.ª eleição presidencial no Irã. Mais de 39 milhões de cidadãos, representando 85% dos eleitores qualificados para votar, foram às urnas. De acordo com o governo, Mahmoud Ahmadinejad obteve 62,6% dos votos e seu principal oponente, o ex-primeiro ministro Mir Hossein Mousavi, 33,75%. A desconfiança sobre os resultados desencadeou protestos generalizados do Movimento Verde.

Mousavi e o terceiro candidato, o ex-presidente do Parlamento Mehdi Karroubi, exigiram a anulação do resultado. Seus seguidores em Teerã e em outras grandes cidades tomaram as ruas, gritando, "onde está o meu voto?".

As manifestações das quais participaram centenas de milhares de pessoas continuaram durante uma semana, mas o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, rejeitou as demandas, acusou os Estados Unidos e outras potências ocidentais de interferirem nos assuntos iranianos e exigiu o fim dos protestos. Em seu sermão durante as orações da sexta-feira, uma semana após as eleições, as palavras de Khamenei eram entendidas por muitos como uma aprovação da violenta repressão contra os manifestantes.

Foram necessários nove meses para o regime sufocar o Movimento Verde. Dezenas de milhares de pessoas foram presas e muitas foram condenadas. Pelo menos 110 morreram (embora o regime tenha declarado que somente 33 haviam morrido, entre elas 16 da milícia Basij, força paramilitar controlada pela Guarda Revolucionária). Muitos prisioneiros foram torturados e ocorreram julgamentos que lembraram o período stalinista. Alguns presos foram forçados a confessar que trabalhavam para governos estrangeiros.

Mas Mousavi e Karroubi, líderes do Movimento Verde, continuaram a protestar. Usando a revolta política na Tunísia e no Egito como desculpa, convidaram a população a se manifestar em 15 de fevereiro de 2011. Pelo menos um milhão de pessoas foi para as ruas nesse dia em Teerã. E então, por ordem de Khamenei, Mousavi, a mulher dele, a professora universitária Zahra Rahnavard, Karroubi e sua mulher, Fatemeh Karroubi, foram colocados sob prisão domiciliar. Fatemeh foi libertada mais tarde, mas os outros três ainda estão sob estrita prisão domiciliar.

O chefe da Guarda Revolucionária, o general Mohammad Ali Jaafari, afirmou recentemente que suas forças empreenderam três ações "fundamentais e estratégicas" contra o Movimento Verde: prisão generalizada dos estrategistas e líderes dos protestos, forte oposição aos manifestantes para impedir suas ações nas ruas e um corte dos meios de comunicação entre eles, celulares, SMS, etc.

Vitória na derrota. O Movimento Verde pode ter sido sufocado, mas apenas aparentemente. Sua demanda original - o cancelamento das eleições de 2009 - nunca foi atendida.

Ahmadinejad continuou a presidir o Irã e deixou o cargo no ano passado, depois de oito anos de fracassos políticos e econômicos. Deixou um Irã arruinado para seu sucessor, Hassan Rohani. Com o decorrer do tempo, os objetivos e demandas do Movimento Verde aumentaram e evoluíram.

Na era das comunicações eletrônicas e do YouTube, qualquer grupo reunindo uma centena de pessoas pode dizer que representa "as demandas da população". Alguns chegaram até a pedir uma intervenção estrangeira e a imposição de sanções econômicas rigorosas contra o Irã. Em entrevistas a emissoras de TV de língua farsi, com base no exterior, a então secretária de Estado Hillary Clinton prometeu até que se os Estados Unidos recebessem um pedido dos líderes da oposição, o país forneceria a ajuda que o país ofereceu para a população da Líbia em sua luta para depor o regime de Muamar Kadafi.

Mousavi e Karroubi, por sua vez, resistiram corajosamente à pressão de Khamenei e seus partidários e continuaram insistindo nos princípios democráticos pacíficos. A maioria de seus seguidores também continuou a pressão neste sentido, mas uma pequena fração da sociedade exigia a deposição do regime de qualquer maneira.

Derrota moral do regime. Embora a República Islâmica aparentemente tenha derrotado o Movimento Verde, fracassou do ponto de vista moral. Por quatro razões. Recorrendo à força contra manifestantes pacíficos o regime não quis colocar à prova suas alegações sobre as eleições cancelando-as e realizando novas. Em vez disso, usou a força bruta como árbitro definitivo de sua disputa com a nação. O uso da força é sempre um sinal de fraqueza política. Na verdade, ao recorrer à força, o governo violou sua Constituição e encorajou as pessoas a violarem as leis. Esse representa o maior fracasso moral do Estado.

A resistência dos líderes do Movimento Verde e de uma parcela importante da sociedade contrária ao regime persistiu mantendo viva a ideia de que as eleições de 2009 eram "um problema não resolvido". A República Islâmica tem um longo histórico de criar problemas insolúveis e transformá-los em motivos para protestos públicos. Além disso, novas evidências surgiram apoiando a disputa de Mousavi e Karroubi com relação às eleições. Por exemplo, o general Jaafari afirmou numa reunião dos comandantes da Guarda Revolucionária que nas eleições de 2009 "havia sérias preocupações de que os contrarrevolucionários que penetraram no governo durante o período das reformas (do ex-presidente Mohammad Khatami) teriam oportunidade de fazer o mesmo". Jaafari acrescentou que para o governo haveria um segundo turno (se nenhum candidato obter mais de 50% dos votos) e ninguém sabia o que poderia ocorrer nesse segundo turno. Assim, a Guarda Revolucionária viu-se forçada a intervir para evitar que os reformistas retornassem ao poder.

A transformação de Mousavi e Karroubi em heróis nacionais e a crescente pressão da sociedade por sua libertação e de todos os presos políticos representam a terceira razão do fracasso do regime. O presidente Hassan Rohani tem agido seriamente nesse sentido, mas encontra forte resistência por parte de Khamenei e de integrantes mais radicais no âmbito da inteligência e segurança.

O Movimento Verde criou relações e gerou confiança entre os cidadãos, o que deu origem a uma força social poderosa que pode ressurgir, se tiver oportunidade.

Ditadura e eleições. A República Islâmica é uma ditadura, mas realiza eleições regulares para o Parlamento, a presidência, as prefeituras e o Conselho dos Guardiães (órgão que nomeia o líder supremo).

Embora o Conselho dos Guardiães analise os candidatos e impeça um bom número de se candidatar, as eleições são muito competitivas e relevantes. Por exemplo, desde o início sempre houve uma luta pelo controle das fontes de poder, riqueza e posição social. As eleições presidenciais sempre foram uma oportunidade para mobilizar a sociedade e envolver diretamente as forças que competem entre si.

Mousavi, Karroubi, Khatami e a maioria dos prisioneiros políticos e forças de oposição no Irã rejeitam criar uma situação em que o Irã sofreria o mesmo destino do Afeganistão, Iraque, Líbia e Síria. Eles insistem numa transição pacífica da ditadura religiosa para um governo democrático com base no respeito pelos direitos humanos dos cidadãos e opõem-se a uma intervenção estrangeira no país. Seu objetivo é uma transição pacífica para a democracia, e não uma destruição do Irã do modo que seus vizinhos sofreram.

O Movimento Verde e seus partidários não desistiram. Quando surgir a oportunidade eles se mobilizarão novamente para trazer a democracia mais perto do Irã. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É JORNALISTA E DISSIDENTE

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