Mauricio Lima/ The New York Times
Mauricio Lima/ The New York Times

MP da Holanda conclui que míssil russo derrubou voo MH-17 na Ucrânia

Tragédia aconteceu em 17 de julho de 2014, em meio à guerra pelo controle da região de Donbass, no leste ucraniano, junto à fronteira com a Rússia; Moscou questiona validade da investigação

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2016 | 13h15

O Ministério Público da Holanda anunciou nesta quarta-feira, 28, que o disparo que derrubou o voo MH-17 da companhia aérea Malaysia Airlines, matando 298 pessoas, partiu de uma bateria antiaérea instalada em um setor da Ucrânia então sob o controle de tropas separatistas pró-Rússia. Segundo os procuradores, o míssil BUK foi transportado para o território ucraniano em 17 de julho de 2014, a partir da Rússia, antes que o lançador fosse levado de volta ao país. As conclusões do relatório na prática jogam a responsabilidade sobre o incidente de guerra sobre o Exército da Rússia, suspeito de apoiar rebeldes contrários ao governo de Kiev. 

A queda do Boeing 777 que fazia a rota entre Amsterdã, na Holanda, e Kuala Lumpur, na Indonésia, foi um dos episódios mais graves da guerra pelo controle da região ucraniana de Donbass, que tem maioria étnica russa e está situada junto à fronteira russa. 

A investigação, que se desenrolou por mais de dois anos, foi muito prejudicada em seu início pelo conflito armado, em especial pelo cerco de tropas pró-Rússia na região, impedindo ou controlando o acesso dos peritos internacionais que apuravam as causas da queda do voo. O incidente deu origem a uma guerra de versões entre o Ocidente, que acusava o regime de Vladimir Putin de ser o responsável pelo disparo, e o Kremlin, que denunciava o exército da Ucrânia.

Nessa quarta, o MP da Holanda deu sua palavra final a respeito da tragédia. Segundo os procuradores, o míssil de modelo BUK foi transportado da Rússia para a Ucrânia no próprio dia do disparo. Isso significa que o projétil pertenceria ao exército russo, que tem o uso exclusivo do equipamento. As conclusões são tiradas de fotografias, vídeos, dados de telecomunicações, conversas telefônicas e testemunhos colhidos pelos investigadores com o objetivo de reconstituir a trajetória do comboio militar que teria transportado a bateria antiaérea BUK da Rússia para a Ucrânia. 

"Nossa investigação mostrou que o local no qual o míssil foi disparado estava nas mãos dos rebeldes", afirmou na entrevista coletiva o promotor Wilbert Paulissen. "Com base na investigação penal, nós podemos concluir que o avião do voo MH17 foi abatido em 17 de julho de 2014 por um míssil BUK levado do território da Federação Russa e, após o tiro, o sistema foi levado de volta à Rússia."

Ainda segundo o MP, mais de 100 pessoas que teriam desempenhado um papel ativo no desastre puderam ser identificadas. Os apontados teriam desempenhado "um papel ativo no armamento do sistema BUK ou em seu transporte, ou ainda teriam facilitado ou ajudado", segundo explicou o coordenador da investigação, Fred Westerbeke. O promotor no entanto não os classificou como suspeitos, mas por ora como potenciais fontes primárias de informação sobre a tragédia

A divulgação do relatório levou o governo da Rússia a se manifestar reiterando ter colaborado para a investigação, fornecendo informações que mostrariam que não houve participação russa no crime. "Os fatos não deixam dúvidas. Não se pode tirar conclusões sem levar em consideração as últimas informações tornadas públicas por nossos militares", alegou. Segundo Peskov, dados do Ministério da Defesa colhidos a partir de radares que indicaram todas as aeronaves e os objetos que poderia ter sido lançados ou se encontrar no ar sobre o território controlado pelos separatistas foram fornecidos aos promotores holandeses. Nessas indicações, não aparece nenhum míssil, sustenta. "Se não houve míssil, ele não poderia ter sido lançado de um outro território." 

A guerra de versões envolvendo a queda do voo MH-17 teve início no dia do acidente e um novo capítulo em setembro de 2015, quando o fabricante dos mísseis, a Almaz-Antei, apresentou em Moscou uma simulação da explosão alegando que o equipamento usado no disparo era dos modelos vendidos ao exército da Ucrânia, e não dos usados pelo russo. No mesmo dia, o Escritório de Investigação para a Segurança (OVV) da Holanda apresentou seu relatório, concluindo que a zona de disparo do míssil era a região controlada pelos separatistas pró-Rússia.

Excetuando-se os implicados por sanções econômicas impostas durante a guerra pela União Europeia e pelos Estados Unidos, e retaliadas por Moscou, nenhum responsável foi diretamente punido pela tragédia do voo MH-17.

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