REUTERS/Jorge Silva
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MP da Venezuela ouviu João Santana sobre dólares da campanha de Chávez

Procuradores viajaram ao Brasil e se reuniram com o marqueteiro e sua mulher, Mônica, buscando mais informações da denúncia feita por ela sobre pagamentos irregulares em dinheiro vivo durante eleição venezuelana de 2012

Juan Francisco Alonso, Especial para o Estado / Caracas, O Estado de S.Paulo

04 Agosto 2017 | 05h00

O caso Odebrecht é prioridade para o Ministério Público da Venezuela, que, em uma tentativa de acelerar as investigações, enviou dois procuradores ao Brasil para obter informações em primeira mão que permitam estabelecer quais funcionários chavistas receberam subornos da construtora brasileira. Em Salvador, os representantes do MP venezuelano ouviram o marqueteiro João Santana e sua mulher, Mônica Moura, que estão em prisão domiciliar. 

Em março, Mônica afirmou à Procuradoria-Geral da República (PGR) que ela e o marido teriam recebido U$ 11 milhões em dinheiro vivo para fazer a campanha de Hugo Chávez à presidência em 2012. No encontro desta semana, os procuradores buscaram mais elementos para investigar essa e outras informações passadas pelo casal em acordo com a PGR. 

O envio dos representantes foi determinado pelo Ministério Público venezuelano, comandado pela procuradora-geral Luisa Ortega Días. Fontes do MP do país vizinho não identificaram os enviados, que chegaram ao Brasil no início da semana. “Eles se reuniram com procuradores que conduzem a Operação Lava Jato”, disseram as fontes judiciais, que não quiseram dar mais informações para proteger a segurança dos investigadores.

No entanto, os venezuelanos não viajaram apenas para obter provas que permitam processar os funcionários e ex-funcionários chavistas, assim como seus parentes, por enriquecimento com os subornos pagos pela Odebrecht, mas também buscar elementos sobre o suposto financiamento ilegal das campanhas eleitorais pela empresa brasileira.

“Ouviram o publicitário João Santana e a mulher dele, Mônica Moura, em Salvador, onde se encontram em prisão domiciliar”, disseram as fontes judiciais venezuelanas. O advogado do casal, Juliano Campelo Prestes, confirmou à reportagem que o encontro foi realizado. 

Em sua delação, Mônica afirmou que o dinheiro para a última campanha à reeleição do líder bolivariano, morto em 2013, foi entregue pelo atual presidente venezuelano, Nicolás Maduro – que na época ocupava o cargo de chanceler. 

Maduro, segundo declarou Moura, “exigiu que a maior parte dos pagamentos referentes à campanha de reeleição fosse feita com recursos não declarados”, sendo que os pagamentos extraoficiais seriam feitos pela Odebrecht e por Andrade Gutiérrez. Também informou que outros US$ 15 milhões que haviam sido acertados com o atual presidente venezuelano jamais foram pagos.

Planos. A viagem dos promotores, que foi preparada em absoluto sigilo para evitar que seus passaportes fossem anulados como já ocorreu com um funcionário de alto escalão da Procuradoria semanas atrás, também busca obter provas que ajudem a investigar as atividades da Odebrecht na Venezuela e evitar que elas caiam nas mãos do governo Maduro, como aparentemente já aconteceu.

“A Promotoria brasileira enviou uma informação, mas ela nunca chegou a nossas mãos. Aparentemente foi parar na chancelaria onde, é claro, não nos repassaram nem vão repassar”, disseram as fontes do MP venezuelano, acrescentando: “Antes que a Procuradoria-Geral começasse a questionar o comportamento do governo havia uma estreita colaboração com a chancelaria e nos enviavam tudo o que pedíamos a outros países, mas agora há coisas que ficam com eles”.

Em um acordo feito com o Departamento de Justiça dos Estados Unidos, a Odebrecht revelou ter pago centenas de milhões de dólares em propinas em diversos países onde atua ou atuou. Na Venezuela, a empreiteira confessou ter pago cerca de US$ 98 milhões a funcionários de governos em troca de obras públicas. Os contratos envolvem estruturas feitas tanto por governantes chavistas quanto em áreas governadas pela oposição. 

Após a revelação da delação de Mônica, as duas empreiteiras afirmaram que estavam cooperando com as investigações no âmbito da Lava Jato. O governo venezuelano não se pronunciou sobre a acusação feita pela publicitária a Maduro.

Em entrevista ao Estado, no fim de julho, Ortega denunciou a criação de obstáculos a seu gabinete na investigação do caso. “Não temos acesso a muitas das provas que estão fora do país e agora cada vez que um funcionário do MP se prepara para viajar ao exterior anulam seu passaporte, um procedimento à margem da Constituição.”

 

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