REUTERS/Denis Balibouse
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MSF quer investigação independente em Kunduz

Para ONG, relatório do Pentágono é insuficiente para determinar causas do bombardeio e vê risco de conflitos de interesse

Jéssica Otoboni, O Estado de S. Paulo

29 de novembro de 2015 | 02h00

A diretora-geral da ONG Médicos Sem Fronteiras no Brasil, Susana de Deus, criticou o rumo dado pelo Pentágono às investigações do bombardeio dos EUA a um hospital da organização em Kunduz, no Afeganistão, no dia 3, que deixou 30 mortos. Relatório apresentado na quarta-feira pelo general John Campbell, comandante americano no país, diz que o incidente foi provocado por “erros humanos e técnicos”.

Ao Estado, Susana pediu uma investigação independente do caso. “Honestamente, para a organização é essencial que seja feito um relatório pela Comissão Internacional Humanitária para a apuração dos fatos”, disse. Ela argumenta que o órgão “não tem conflito de interesse” e, portanto, seria capaz de realizar uma investigação mais isenta.

“Tivemos uma conversa por telefone com o general Campbell, que nos deu informações sobre os pontos principais que seriam detalhados no documento”, acrescentou. “Ficamos um pouco incrédulos com a simplicidade com a qual estão tratando essa questão.”

Com relação às informações apresentadas no documento, a MSF não está interessada em punir os responsáveis pelo incidente, mas sim saber exatamente o que aconteceu. “O general Campbell atribuiu o ataque a uma série de erros humanos e técnicos. Ele disse que as forças americanas falharam nas regras militares, mas não sabemos o que são regras de guerra para os EUA, se eles têm a mesma compreensão que nós sobre o direito internacional humanitário estabelecido pelas convenções de Genebra”, afirmou a diretora. “ Se não tivermos essas informações, continuaremos na mesma situação.” 

Informações divulgadas pouco após os EUA admitirem que houve erro nas operações em Kunduz apontavam que o hospital teria sido bombardeado equivocadamente. No entanto, a organização contesta a informação. Susana explica que a cidade contava com poucos pontos de iluminação e o local onde estava o hospital da MSF era iluminado.

“O hospital forneceu coordenadas geográficas por GPS várias vezes. É claro que para nós fica difícil acreditar no argumento de que não se conhecia o local, que não se sabia que ali funcionava um hospital.”

O ataque aéreo em Kunduz foi uma contraofensiva das tropas afegãs para recuperar a cidade das mãos do Taleban. No entanto, não foi a primeira vez que a organização sofreu atentados. Instalações da ONG Médicos Sem Fronteiras na Síria e no Iêmen foram atacadas recentemente. “Infelizmente, não são somente as instalações da MSF que sofrem atentados, mas também as das poucas organizações humanitárias internacionais que ainda conseguem servir populações em áreas de conflito armado”, concluiu.

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