'Mubarak deve sair, o regime falhou', diz opositor ElBaradei

Ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica disse que os protestos não têm precedentes.

BBC Brasil, BBC

29 de janeiro de 2011 | 17h30

Ex-diretor da AIEA participou dos protestos no Cairo

O egípcio Mohammed ElBaradei, ex-diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) e opositor do governo de Hosni Mubarak, defendeu em entrevista à BBC a saída do atual presidente.

Falando ao repórter da BBC Jeremy Bowen, ElBaradei disse que, se Mubarak não sair imediatamente, ele deve pelo menos garantir que não disputará a próxima eleição presidencial egípcia, que ocorrerá ainda este ano. Mubarak está no poder há 31 anos.

"O povo do Egito se revoltou, por assim dizer, contra 58 anos de repressão e contra 30 anos de ditadura sob Mubarak", disse ElBaradei. "Mubarak deve sair, o regime falhou e ele precisa mudar."

Nessa sexta-feira, Mubarak fez um pronunciamento na TV anunciando a dissolução de seu gabinete de governo, mas afirmando que não sairá do poder.

"Se ele recebeu a mensagem e faz de conta que não ouviu, então isto é um insulto à inteligência do povo egípcio", disse ElBaradei, que chegou ao Cairo na quinta-feira para participar das manifestações.

Protestos

O opositor afirmou ainda que os protestos no Egito não têm precedentes na história do país, pelo número de pessoas envolvidas. Ele criticou a violência usada contra os manifestantes.

"Eu estava lá, andando em um protesto dos mais pacíficos, em que havia pessoas mais velhas e outras mais novas, e nós fomos alvos de canhões d'água. A mídia internacional foi expulsa de lá", disse.

Neste sábado, o presidente do Egito deu posse ao novo primeiro-ministro, Ahmad Shafiq, que antes ocupava o Ministério da Aviação. Ele ficará a cargo de montar o novo gabinete de governo.

Mubarak também nomeou o chefe de Inteligencia egípcio, Omar Suleiman, como vice-presidente - cargo que nunca havia sido ocupado nos 31 anos de seu regime.

Os protestos populares pedindo a saída de Mubarak entraram hoje no quinto dia, sendo registrados na capital, Cairo, e nas cidades de Alexandria e Suez. Pelo menos 38 pessoas morreram desde o início das manifestações, na última terça-feira.

Os serviços de telefonia celular já foram retomados na capital egípcia, mas a internet está bloqueada deste a sexta-feira.

"Mudanças verdadeiras"

O presidente da Liga Árabe, Amr Moussa, disse à BBC que espera mudanças verdadeiras no Egito depois dos protestos contra o governo.

"Tentar superar a situação atual e depois voltar para o jeito como as coisas estavam não será aceitável para mim", disse Moussa. "Eu não falei com o presidente Mubarak, mas ele sabe o que está acontecendo, e mesmo que haja reformas, isto não será suficiente para agradar o povo."

"Eu acho que o povo egípcio de todas as facções e religiões mandou uma mensagem forte, que não se perderá com ninguém", afirmou o dirigente árabe.

Crítica aos protestos

Por sua vez, o egípcio Maged Boutros, um dos integrantes do comitê de formulação de políticas do partido de Mubarak, o NDP, criticou os protestos e disse que o atual presidente só pode sair do poder por meios democráticos.

"Existe uma linha tênue entre a expressão pacífica de opinião e a violência", disse Boutros à BBC. "A multidão está protestando, está provocando incêndios, está promovendo saques. Isto não é democracia", afirmou.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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