Lefteris Pitarakis/AP
Lefteris Pitarakis/AP

Mubarak indica chefe de inteligência como vice, mas não freia violência

Estratégia anunciada por ditador não acalma os manifestantes, que desafiam o toque de recolher e prometem permanecer nas ruas das cidades egípcias até a queda do regime; mortos passam de 100

Jamil Chade, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2011 | 00h00

Tentando retomar o controle sobre o Egito, o presidente Hosni Mubarak nomeou o chefe de seu serviço secreto militar, Omar Suleiman, vice-presidente - cargo que até este sábado inexistia no Cairo. Mas a medida, parte da "reformulação do gabinete" prometida na véspera, não esvaziou as ruas, onde protestos e repressão continuam a se ampliar.

 

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Durante os protestos populares, outros três manifestantes morreram no Cairo e três policiais foram mortos em Rafah, elevando para pelo menos 102 o número de pessoas mortas nos protestos que eclodiram na terça-feira, incluindo 33 no sábado, segundo fontes médicas. Sem citar fontes, a rede de TV árabe Al-Jazira informou que 150 pessoas morreram desde a sexta-feira.

"Ficaremos nas ruas até Mubarak sair", gritavam os opositores desafiando os tanques do Exército. No sábado, o gabinete inteiro de Mubarak apresentou sua demissão, a pedido do presidente, que tentou um gesto na esperança de que a população se acalmasse. Além de Suleiman, Ahmad Shafiq - então ministro da Força Aérea, cargo já ocupado pelo próprio Mubarak - foi colocado na cadeira do primeiro-ministro.

A indicação do general e chefe da inteligência causou especulações de que Mubarak estaria preparando Suleiman para uma espécie de "governo de transição", abrindo caminho para sua saída. Suleiman tem bom trânsito entre a atual elite política e militar, e seria uma alternativa a uma mudança de nomes com a manutenção do status quo.

"Acham que somos tolos?", questionou Khaled Omar, editor do jornal de oposição Al Massry Al-Youm. "A ira das pessoas só vai acabar quando Mubarak cair e acabar com seu reinado de 30 anos", disse o jornalista.

Nas ruas, a meta dos manifestantes era demonstrar ao governo que as reformas não seriam aceitas e que a mera substituição dos ministros não bastaria. "Deixaremos nossa alma e nosso sangue pela liberdade", dizia um dos cartazes levados pela população em uma das ruas que beiram o Nilo, no Cairo.

Um dos momentos mais tensos dos protestos deste sábado foi uma procissão no centro da capital egípcia que levava o corpo de um dos mortos durante as manifestações, vítima da violência da polícia. O morto era um estudante de Direito, de 22 anos. Seu pai, três irmãos e inúmeros desconhecidos pediam justiça enquanto carregavam, em um pano branco, o corpo ainda ensanguentado do jovem.

"Mubarak: bem-vindo à Tunísia", dizia um outro cartaz, escrito em inglês, que buscava comunicar à imprensa internacional de que a queda do governo em Túnis deve servir de exemplo ao Egito.

Toque de recolher. A sede da legenda de Mubarak, o Partido Nacional Democrático (PND), prédios de propriedade de seu filho, shopping centers, casas de comércio e dezenas de outros lugares foram incendiados pela população. O cheiro de gás lacrimogêneo de sexta-feira foi substituído neste sábado pelo cheiro de queimado. A fumaça tomava conta das ruas e, à noite, era possível ver vários focos de incêndio no centro da capital.

A TV nacional do Egito também foi atacada, por manifestantes que tentaram invadir o local. Centenas de policiais cercavam o local e impediram a população de entrar. Na rua do Ministério do Interior, policiais abriram fogo - com munição real, segundo os manifestantes - contra uma multidão que marchava na direção do edifício. Trocas de tiro também foram registradas em vários pontos do Cairo e de outras cidades egípcias.

Para tentar frear a revolta, o governo anunciou que o toque de recolher entraria em vigor às 16 horas de ontem. Quem descumprisse estaria sujeito à prisão e sanções legais, afirmou o governo em um comunicado oficial. Mais uma vez, porém, as ordens foram ignoradas.

"O governo já não existe. Há poucas semanas, era impensável ver essas imagens no Egito. Hoje vemos que a população perdeu o medo", disse ao Estado um dos colunistas mais importantes do país, Mohammed Tharwat. Segundo ele, a grande questão agora será a reação do Exército aos protestos. "Isso é o que definirá o futuro de Mubarak. Os militares sabem que não poderão simplesmente abrir fogo ou manter a repressão por muitos dias. Seria um banho de sangue", disse o colunista.

Os conflitos se espalharam por várias regiões do Cairo neste sábado. Em um centro de detenção da capital egípcia, os presos realizaram uma rebelião. Caixas eletrônicos de diversos bancos foram atacados.




Notícia atualizada às 11h08.

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