Mubarak recebe prisão perpétua por repressão a manifestantes no Egito

Primavera Árabe. Tribunal do Cairo determina que ex-presidente egípcio, derrubado no ano passado após levantes populares, seja transferido para cadeia; ex-ditador teria sofrido enfarte em helicóptero a caminho da prisão e está internado na UTI

CAIRO, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2012 | 03h02

O ex-ditador egípcio Hosni Mubarak foi sentenciado ontem à prisão perpétua por um tribunal do Cairo. O homem que comandou com mãos de ferro o Egito por três décadas acabou condenado por cumplicidade no assassinato de cerca de 900 manifestantes durante a revolta que derrubou seu governo, no ano passado. Mubarak sofreu uma "crise cardíaca" pouco após ouvir o veredicto, segundo seus assessores.

Foi a primeira vez que um líder árabe deposto enfrentou um tribunal desde que a Primavera Árabe atingiu a região. Após o anúncio da sentença, dezenas de milhares de egípcios voltaram para a Praça Tahrir, o epicentro da revolta que derrubou a ditadura egípcia. Alguns comemoravam a decisão da Justiça. Outros lamentavam que Mubarak não tenha sido condenado à pena capital, como pedia a promotoria (mais informações nesta página). Advogados do ex-ditador prometem recorrer da sentença.

A notícia da condenação ocorre em um momento especialmente delicado da política egípcia. O país está em meio a eleições presidenciais e o segundo turno deve ocorrer nos dias 16 e 17. O último premiê da ditadura, Ahmed Shafiq, enfrentará o candidato da Irmandade Muçulmana, Mohamed Morsi.

O veredicto de ontem foi lido pelo juiz Ahmed Refaat. Também foi condenado à prisão perpétua o ex-ministro do Interior Habib al-Adli, pela mesma acusação, enquanto seis de seus ajudantes acabaram absolvidos por falta de provas.

A corte egípcia, no entanto, decidiu absolver os dois filhos de Mubarak, Alaa e Gamal. Eles respondiam a acusações de enriquecimento ilícito e danos aos cofres públicos. O tribunal decidiu que os delitos prescreveram.

O processo, com um expediente de 60 mil páginas, desenvolveu-se ao longo de 49 sessões, que, ao todo, somaram 250 horas. Mubarak, de óculos escuros e em uma maca, escutou impassível a leitura da sentença.

Saúde. Momentos antes de chegar à penitenciária de Tora, quando ainda estava no helicóptero que o havia levado do tribunal, Mubarak sofreu um ataque cardíaco, segundo pessoas que continuam assessorando o ex-ditador. Aos 84 anos, foi imediatamente atendido e transferido para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital da prisão.

Segundo a rede de TV estatal, Mubarak sofreu um "ataque agudo e repentino" no momento em que o helicóptero aterrissava no complexo penitenciário. Seu histórico de problemas cardíacos é longo. Um dia após ser detido, em abril de 2011, ele foi internado no hospital de Sharm el-Sheikh, na Península do Sinai, após sofrer um enfarte. Ele ficou internado até seu julgamento, em agosto. Desde então, permaneceu no hospital até que a Justiça determinasse, ontem, que fosse mandado a Tora. / AP

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