Muçulmanas não consideram Islã patriarcal

Estamos sentadas num clube elegante, o ArRum, em Clerkenwell, centro de Londres, que se distingue de seus muitos vizinhos por ser muçulmano, não ter álcool no cardápio e possuir uma sala de orações no andar inferior. O elegante local é o cenário adequado de um encontro de mulheres para discutir o Islã e a situação da mulher. Todas com formação universitária, entre 20 e 30 anos e atuantes em carreiras que vão do jornalismo à educação. Todas optaram nos últimos anos pelo hijab (lenço enrolado em volta da cabeça, apertado firmemente, para esconder totalmente cada fio de cabelo). E todas essas mulheres exprimem fluente e irrefutavelmente a crença de que o Islã as liberou e lhes deu mais poder. O Islã que descrevem está a milhares de léguas do Islã do Taleban, sem falar do Islã praticado em muitos países muçulmanos, do Paquistão à Arábia Saudita, mas elas - apoiando seus argumentos com menções ao Alcorão - insistem que o Islã com o qual tiveram os primeiros contatos na adolescência é fiel aos ensinamentos do Profeta Maomé. Elas não precisam do feminismo ocidental, que se desenvolveu, segundo argumentam, como reação contra a expressão específica do patriarcado ocidental. E crêem que na tradição corânica e na vida do Profeta repousam os direitos e a inspiração que a mulher necessita para realizar a plenitude de seu potencial - o desafio do futuro é formar meninas e mulheres muçulmanas de forma que possuam essa compreensão. Elas justificam o uso do hijab como afirmação pública da própria jornada espiritual da mulher ou de sua identidade política, num mundo em que o Islã se sente sob ameaça. Shagufta, de 25 anos, editora da revista muçulmana Q News, educou-se em Londres, num lar paquistanês tradicional, onde o conservadorismo cultural era mais relevante do que a fé. O casamento com um primo do Paquistão foi arranjado para ela quando tinha menos de 10 anos. Os pais não queriam que continuasse os estudos e a adoção do hijab foi para ela um ato de rebelião contra o ambiente cultural tradicional. "Quando usei o hijab pela primeira vez meus pais ficaram escandalizados", conta Shagufta. Teriam ficado mais felizes se ela usasse a shalwar-kamiz paquistanesa e um lenço solto na cabeça. "Mas encontrei a liberação no Islã, que me deu a confiança para insistir numa boa educação e rejeitar o casamento arranjado." Shagufta foi influenciada pela decisão de sua amiga Soraya de usar o hijab. Alcorão - A formação liberal francesa católico-muçulmana de Soraya não poderia ter sido mais dissonante, mas, como Shagufta, ela encontrou no Alcorão a auto-afirmação como mulher: "O Alcorão diz que homens e mulheres são iguais aos olhos de Deus, e somos, uns para os outros, como roupas que se agasalham mutuamente." Reiteradamente, as mulheres salientam esses dois temas, evocados numa metáfora corânica de grande riqueza poética: primeiro, a igualdade dos sexos aos olhos de Deus (a igualdade mais significativa de todos, afirmam) e, segundo, a complementaridade dos sexos. Como diz o Alcorão: "Criei-te de uma alma e dessa alma criei o cônjuge, para que vivam em harmonia e amor." É verdade que existe farto material no Alcorão, mais igualitário do que a tradição cristã ocidental, fortemente influenciada pela misoginia do pensamento grego. Talvez o mais fundamental é que o Deus islâmico não tem gênero. A língua árabe se refere a ele usando o pronome masculino, mas nunca é descrito como "pai" ou "senhor", como acontece na tradição judaico-cristã. Amor - De fato, o Deus islâmico tem características expressamente femininas; um de seus mais importantes "nomes" é Al-Rahman (o Todo-Piedoso), do árabe rahma, palavra derivada de rahim, cujo significado é útero. De acordo com a mística islâmica, o amor divino é feminino, diferentemente da mística cristã - por exemplo, a famosa estátua de Bernini em Roma representa Santa Teresa de Ávila enamorada do Cristo homem. Como escreve a muçulmana Sartaz Aziz: "Estou profundamente agradecida por minhas primeiras idéias terem sido formadas pelo Islã, porque pude pensar no Altíssimo sem sexo ou raça e, portanto, completamente não-patriarcal." Jasmim também escapou de um casamento arranjado, ao descobrir o Islã. A transição para a observância completa dos preceitos religiosos veio depois da universidade, quando trabalhava para uma emissora de televisão. "Visitei Agadir nas férias, voltei com um bronzeado fantástico, mas retomei o trabalho usando um hijab. As atenções que recebia dos homens mudaram. Em vez de fazer uma abordagem sexual, tinham de mostrar interesse pelo que havia no meu cérebro e na minha personalidade, e não por meu corpo. Muitas mulheres exercem poder por meio da sexualidade e isso é degradante para a mulher. É uma forma de escravização." A importância da decisão de usar o hijab leva imediatamente a uma discussão acalorada a respeito de onde, como e por que alguém manifesta sua sexualidade. Todas as mulheres concordam que essa é uma das maiores fontes de mal-entendidos entre as feministas ocidentais e as mulheres muçulmanas. Elas não querem expressar sua sexualidade em público e crêem que o lugar adequado para isso é na privacidade de uma relação íntima. A sexualidade não deve ser usada para afirmação de poder, mas para exprimir o amor, acrescentam. Sexualidade - A escritora marroquina Fátima Mernissi reflete sobre como, no Ocidente, a reivindicação do corpo pelas mulheres levou à expressão pública de sua sexualidade, enquanto no Islã a modéstia tem primazia. As associações que se fazem com vergonha e repressão têm origem na influência da tradição cristã de hostilidade à sexualidade e, conseqüentemente, às mulheres, e do legado de confusão e culpa que a sociedade ocidental herdou. O Islã, por outro lado, tem uma saudável honestidade e uma aceitação da sexualidade humana, que se evidencia na riqueza de detalhes da jurisprudência islâmica, argumentam. Para o dr. Tim Winter, conferencista de Cambridge, convertido ao islamismo, talvez um dos mais respeitados estudiosos da religião muçulmana na Inglaterra, confirma a afirmação de que o Islã não aceita o mito da Eva seduzindo Adão para dar causa ao pecado original e ao ciclo infinito de morte e procriação. De acordo com o pensamento cristão, o sexo resultou do estado pecaminoso da perda da inocência e é visto tradicionalmente com repugnância; o celibato foi estimulado como a sublimação das energias sexuais na busca de Deus, sintetizada na vida de Cristo em celibato. Nada apresenta contraste mais nítido com aquele modelo de santidade do que a vida de Maomé, que teve 12 esposas depois da morte da primeira, Khadija. O amor pelas esposas e seu relacionamento sexual com elas são citados no hadith (máximas do Profeta). Uma das máximas louva a virilidade de Maomé, revelando como se houve com todas as esposas numa única noite. Isso, afirma o dr. Winter, faz dele um homem pleno, integral, próximo a modelos de santidade como Krishna ou um patriarca judeu, como o rei Salomão com suas muitas esposas. Satisfação - Na verdade, uma das obrigações impostas ao marido é que precisa satisfazer a esposa sexualmente; o Profeta recomenda preliminares amorosas, e um grande sábio islâmico, o imã Ghazali, advertiu os homens de que não deviam ter orgasmo demasiado rápido. Como assinala Fátima em "Beyond the Veil", o Islã sempre entendeu que a sexualidade da mulher é ativa, enquanto a cristandade ocidental educou as mulheres a aceitarem a passividade sexual - o método "deite-se e pense na Inglaterra". Esse era o meio de internalizar nas mulheres, ou seja, fazê-las aceitar, como parte integral de suas atitudes e crenças, o controle da sexualidade feminina desejado pelos homens; as culturas muçulmanas usaram controles externos de segregação e autoridade masculina, comenta Fátima. Leia o especial

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