Reprodução/SiteOmarQudrat
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Muçulmano e republicano, filho de afegãos busca vaga no Congresso americano

Omar Qudrat, de 37 anos, não condena decreto migratório de Trump que proíbe entrada de pessoas de vários países de maioria muçulmana

O Estado de S.Paulo

05 Novembro 2018 | 16h51

SAN DIEGO - Ele é muçulmano e republicano, uma combinação que muitos não pensariam possível no partido do presidente Donald Trump, quase uma contradição. "Sou americano, ponto", afirma Omar Qudrat, que afirma não aceitar que sua religião e etnia definam sua campanha ao Congresso dos Estados Unidos.  

"Temos um partido muito diverso", declarou ele à France-Presse. "O que acontece é que não é nossa prioridade ficar falando sobre isso. Recebi um grande apoio do Partido Republicano de San Diego, de congressistas e não teve nada a ver com minha etnia ou religião", insiste.

Mas a realidade é que Qudrat, de 37 anos e filho de imigrantes afegãos, pode ser o primeiro republicano muçulmano a chegar ao Congresso. Dois muçulmanos estão atualmente na Câmara dos Deputados: Keith Ellison foi o primeiro, seguido por André Carson. Os dois são democratas.

Qudrat, no entanto, não se importa com o rótulo. Sua filosofia se baseia no "mundo dos fatos e da realidade", deixando as emoções de lado.

Da mesma maneira, não condenou o decreto migratório de Trump que proíbe a entrada de pessoas de vários países de maioria muçulmana - ele assegura que conhece temas de Segurança Nacional de perto depois de ter trabalhado no Departamento de Defesa.

Ao mesmo tempo evita falar sobre a campanha do também republicano Duncan Hunter, que na mesma San Diego afirmou que os muçulmanos são "asquerosos" e que seu rival Ammar Campa-Najjar é um simpatizante de terroristas que tenta "infiltrar-se no Congresso".

"Só falo sobre a minha disputa", responde Qudrat, seco. "Tenho muitas coias a falar sobre meu distrito e isso é tudo". Campa-Najjar, filho de um palestino e uma mexicana, não é muçulmano e sim cristão.

Promessas falsas

Qudrat cresceu em um bairro violento de Los Angeles, dominado por gangues. Os tiroteios do lado de fora de sua casa eram algo comum. Ele estava na quinta série quando tentaram recrutá-lo pela primeira vez e na sexta quando ofereceram uma pistola: uma 25 mm por US$ 25.

"Eu digo por que sou republicano. Não acredito no governo, acredito nas pessoas", declarou a um grupo de estudantes em um evento na Universidade de San Diego.

Ele afirma que os democratas não cumpriram o que anunciaram e fazem "promessas falsas". Para o republicano, isso poderia definir seu rival democrata Scott Peters, favorito nas pesquisas.

Aprendeu com os pais, simpatizantes de Ronald Reagan, a "acreditar em você mesmo e na autodeterminação".

"E isto se encaixa mais com a filosofia política republicana", destaca o jovem candidato, que afirma nunca ter sentido discriminação nos Estados Unidos.

Dez anos depois dos atentados de atentados de 11 de Setembro, Qudrat, que fala dari de modo fluente, trabalhou para o Departamento de Defesa no Afeganistão em uma tentativa de melhorar o sistema judicial desse país. Depois trabalhou na Procuradoria Militar processando detentos de Guantánamo.

Ele considera que Washington "tem de encerrar a guerra no Afeganistão de forma responsável, que assegure que o país não se transforme novamente em um refúgio seguro para redes terroristas".

Se chegar ao Congresso, espera usar sua experiência nas comissões das Forças Armadas e das Relações Exteriores.

Temos leis

Qudrat - contrário ao aborto e a favor de mais reduções de impostos para a classe média - acredita que Trump poderia fazer mais para unir os americanos, mas ao mesmo tempo defende sua gestão econômica.

"O presidente Trump evoca sentimentos em algumas pessoas que realmente fazem com que se oponham a ele, mas vamos atrapalhar o progresso que está conseguindo? Há vidas reais que estão melhorando", disse, ao destacar os índices de desemprego e de aumento salarial, sobretudo na classe operária.

Ele concorda com o presidente sobre a necessidade de melhorar a segurança na fronteira - embora tenha se negado a apoiar diretamente o projeto do polêmico muro - e ao mesmo tempo deseja uma solução para os "dreamers", como são chamadas as pessoas que entraram ainda crianças e sem documentos no país.

"Não devem ser tratados como criminosos. São americanos em todos os sentidos, exceto por seu status legal."

Considera que é necessária uma "intervenção federal imediata" na fronteira com o México, a 40 km de San Diego, para combater a imigração ilegal e o tráfico de drogas.

O governo Trump ordenou a mobilização de 5,2 mil militares na fronteira com o México e, segundo o jornal New York Times, o presidente estuda assinar uma ordem executiva para impedir que os migrantes centro-americanos entrem no país.

"Este é o país mais generoso e compassivo no mundo. Mas temos leis", disse Qudrat.

"Fico ofendido com alguém que não quer distinguir entre meus pais, que imigraram legalmente e seguiram o sonho americano (...) e um imigrante ilegal que deseja começar sua relação com o país violando a lei", conclui. / AFP 

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