Cláudia Trevisan
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Muçulmanos americanos temem violência após declarações de Trump

Comunidade que mora em cidade do Tennessee superou desafios para construir um centro islâmico e agora acredita que atos de intolerância podem aumentar; pré-candidato republicano defende que islâmicos sejam proibidos de entrar no país

Cláudia Trevisan, ENVIADA ESPECIAL/MURFREESBORO, O Estado de S. Paulo

14 de dezembro de 2015 | 04h00

MURFREESBORO - Na sexta-feira em que terroristas mataram 130 pessoas em Paris, Basant Salem estava reunida com amigos na cidade de Murfreesboro, no Tennessee. Assim que as TVs começaram a divulgar o vínculo entre o atentado e o extremismo islâmico, a estudante de biologia recebeu um telefonema do pai, pedindo que ela voltasse para casa.

Imigrante egípcio, ele temia que Basant fosse hostilizada por ser muçulmana. Desde então, o receio aumentou. 

Dezenove dias depois do atentado na França, o radicalismo islâmico também foi associado ao ataque que deixou 14 mortos em San Bernardino, na Califórnia. Líder entre os republicanos na disputa pela Casa Branca, Donald Trump respondeu à tragédia com a proposta de barrar a entrada de todos os muçulmanos nos EUA.

“Sinto que estou sendo responsabilizada pelo que aconteceu, mesmo não tendo culpa nenhuma”, disse Basant ao Estado. Como muitas mulheres de sua religião, a jovem de 18 anos é facilmente associada ao islamismo pelo véu que usa. Com a receptividade de parte dos eleitores americanos à retórica de Trump, ela passou a ter medo de frequentar alguns lugares públicos da cidade onde vive com os pais e dois irmãos. “As pessoas começaram a me olhar mais, como se me odiassem”, afirmou, depois de participar do serviço religioso no Centro Islâmico de Murfreesboro, frequentado por cerca de 300 famílias.

Basant nasceu no Egito e vive nos EUA desde os 2 anos. Para ela, a declaração do republicano pode ter consequências devastadoras para os muçulmanos. “Há pessoas que são islamofóbicas, mas não atuam com base nisso. Trump está dando a elas justificativa para agir.”

Reações. A estudante de enfermagem Rana Garadat, de 18 anos, nasceu nos EUA e é filha de uma americana e um paquistanês. “Não me vejo como ameaça a ninguém e fico indignada com a maneira com que ele nos generaliza”, afirmou, referindo-se a Trump. “Ele tenta fazer uma distinção entre muçulmanos e americanos, mas eu sou muçulmana e americana.” 

Há oito anos na liderança dos muçulmanos de Murfreesboro, o imã Ossama Bahloul sustenta que o radicalismo não é uma exclusividade do islamismo. 

“Quem matou o primeiro-ministro de Israel? Foi um israelense radical. Quem explodiu um prédio em Oklahoma? Foi um cristão branco”, exemplificou, referindo-se a dois fatos de 1995 – a morte de Yitzhak Rabin e o atentado cometido por Timothy McVeigh, no qual 168 morreram. “Também estamos preocupados com o radicalismo. Eles sequestraram a nossa religião.”

Segundo o imã, o centro recebeu mensagens ameaçadoras depois que Trump defendeu o veto à entrada de muçulmanos, proposta criticada pelos rivais republicanos e democratas. 

Para Bahloul, Trump explora o medo dos americanos para obter vantagens eleitorais na disputa de 2016. “Conhecendo a Constituição e o povo americanos, não acredito que ele (Trump) possa ser eleito”, disse, ressaltando que o número de mensagens de apoio recebidas pelo centro foi muito maior do que as ameaçadoras. 

O sírio-americano Saleh Sbenaty, que vive há 34 anos nos EUA, disse que a retórica do republicano ajuda o Estado Islâmico e a campanha de recrutamento. “É exatamente isso que eles querem: apresentar os EUA como um país que não gosta dos muçulmanos, que está em guerra com o Islã e, por isso, precisa ser combatido.” 

Professor de engenharia da computação na Universidade Estadual de Middle Tennessee, Sbenaty afirmou que o discurso de Trump pode estimular atos de agressão contra os muçulmanos e o atentado em San Bernardino deveria ser tratado como mais um caso de tiroteios em massa que assolam o país. “Poucos dias antes do ataque, um homem matou três pessoas no Colorado a tiros, mas ninguém disse que ele era um terrorista cristão”, afirmou, referindo-se ao atentado contra uma clínica de abortos. 

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