Muçulmanos põem em xeque preceitos de ''pai'' da pátria

A política interna da Turquia lembra a Venezuela. E a economia, o Brasil. O país, ao longo de mais de oito décadas, foi governado por uma elite ocidentalizada que seguia à risca as reformas impostas por Mustafá Kemal Ataturk, considerado o "pai" da Turquia moderna. Diferentemente do Império Otomano, os turcos adotaram uma identidade ocidental e separaram a religião do Estado. Tentativas de ir contra os ideais kemalistas eram punidos. O Exército fortaleceu-se e os religiosos enfraqueceram-se.O cenário começou a se alterar no começo da década, quando, pressionados para ingressar na União Europeia, os turcos aceitaram que o partido AKP, de origem islâmica, assumisse o governo, em 2003. Sob o comando do premiê Recep Erdogan, o partido foi moderado nos seus primeiros anos de governo. O premiê foi responsável na economia, como o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, recebendo elogios internacionais, e evitou entrar em choque com a tradicional oposição secular. Mas a vitória arrasadora nas eleições de 2007 fortaleceu o partido, e Erdogan começou a tomar medidas contrárias aos preceitos do kemalismo.Há um ano, o procurador-geral da Turquia tentou banir Erdogan e outros 70 membros do seu partido por atividades consideradas antisseculares. O país ficou sob tensão durante quatro meses, até a Justiça decidir contra o banimento. Apesar da vitória, Erdogan e o AKP sentiram-se traídos e acusaram a oposição secular de tentativa de golpe, de uma forma similar a Hugo Chávez em 2002, quando o presidente venezuelano foi removido do poder por alguns dias. Assim como Chávez, eles disseram ser perseguidos pela elite tradicional. No dia 29, ocorrerão eleições municipais e analistas dizem que será possível verificar como anda a popularidade do AKP. Entre os jovens, a desilusão com a política não para de crescer. Pesquisa indica que 91,7% deles não têm interesse em política. Em um restaurante do bairro boêmio de Istklal, no centro de Istambul, um grupo de jovens da elite secular turca que estudaram nos EUA disseram que o AKP tem sim uma agenda islâmica escondida. Mas o problema, para eles, é que membros da oposição secular estão envolvidos em corrupção.

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