Muçulmanos se solidarizam com civis iraquianos, mas esquecem Saddam

A reação do mundo muçulmano ao ataque dos Estados Unidos ao Iraque foi menos incisiva nesta quinta-feira do que muitos analistas esperavam. Protestos espalhados, ampla condenação e uns poucos chamados para a guerra santa foi o que se viu.?É um dia triste para todos os árabes?, disse o secretário-geral da Liga Árabe, Amr Moussa, em breve declaração. ?É triste que uma nação árabe e seu povo sejam submetidos a um ataque militar que não leva os civis em consideração. Estamos muito tristes e zangados.?Praticamente nenhum país falou em defesa do ataque e muitos pediram solidariedade ao povo iraquiano. Curiosamente, um nome esteve ausente dos comunicados oficiais e conversações - o de Saddam Hussein, presidente do Iraque, que tentou reunir apoio árabe e muçulmano, retratando-se a si mesmo como defensor do Islã e dos palestinos em um pronunciamento à televisão na madrugada desta quinta.Deixando de lado as declarações de Saddam Hussein, o presidente do Egito, Hosni Mubarak, citou a necessidade de os árabes se unirem para fazer a paz e conclamou o Iraque a se desarmar, dizendo que a invasão do Kuwait pelo Iraque em 1990 resultou nos atuais problemas de segurança. Mubarak não mencionou o nome de Saddam, o que diplomatas interpretaram como uma deliberada demonstração de deprezo.Logo após os bombardeios na madrugada, a televisão egípcia mostrou um vídeo de Saddam jogando gás nos curdos iraquianos antes da última Guerra do Golfo.A manifestação mais desafiadora no mundo muçulmano aconteceu no Cairo, onde cerca de mil estudantes desfraldaram uma bandeira do Iraque perto da embaixada norte-americana, jogaram pedras e entraram em choque com a polícia.No Kuwait, em marcado constaste com o resto do mundo árabe, as pessoas expressaram seu apoio ao início da luta. Um dos poucos apoios que o próprio Saddam recebeu foi dos palestinos da Cisjordânia e Faixa de Gaza. Lá, os palestinos, que acham que seus irmãos do mundo árabe ignoram suas dificuldades, a retórica de Saddam contra os Estados Unidos ganhou aplausos. Na Jordânia, próximo à fronteira com o Iraque, também se fez sentir o apoio a Saddam, embora os protestos anti-americanos tenham sido pequenos nas nações muçulmanas não-árabes. Na Indonésia, por exemplo, o mais populoso país muçulmano do mundo, cerca de 2.000 manifestantes fizeram uma barulhenta demonstração diante da embaixada norte-americana em Jakarta, carregando cartazes que diziam: ?Procurado: Bush, presidente da América, Criminoso contra a humanidade?.Líderes moderados da Indonésia condenaram a guerra, mas não disseram que ela é um ataque ao Islã. Na Turquia, os jornais deram menos importância à guerra que à decisão do primeiro-ministro Tayyip Erdogan de não pedir ao Parlamento para reconsiderar o deslocamento de tropas norte-americanas por território turco, o que significa que a Turquia vai perder bilhões de dólares em ajuda dos Estados Unidos. ?Esqueça o dinheiro?, dizia a manchete de um jornal.O envolvimento da Turquia na guerra é tão impopular e controverso que a decisão do Parlamento de abrir o espaço aéreo para os aviões americanos foi tomada a portas fechadas.No Paquistão, um dos mais importantes aliados americanos na guerra contra o terrorismo, as ruas das maiores cidades estiveram calmas. O Irã, que lutou uma guerra de oito anos com o Iraque nos anos oitenta, parecia mais preocupado com as festividades de Ano-Novo do que com os eventos do outro lado da fronteira.Veja o especial :

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