Carlos Garcia Rawlins/REUTERS
Carlos Garcia Rawlins/REUTERS

Oposição venezuelana denuncia fraude após perder para chavismo em 75% dos Estados

Coalizão antichavista reclama da mudança de mesas de votação de última hora em redutos opositores, intimidação de eleitores por grupos armados leais ao governo de Nicolás Maduro e distribuição de alimentos e dinheiro em troca de votos

O Estado de S.Paulo

16 Outubro 2017 | 17h37
Atualizado 16 Outubro 2017 | 22h31

CARACAS - A coalizão opositora venezuelana Mesa da Unidade Democrática (MUD) detalhou nesta segunda-feira, 16, as denúncias de fraude contra o governo do presidente Nicolás Maduro nas eleições regionais de domingo, que, segundo resultados oficiais, deram a vitória à oposição em apenas 6 de 23 Estados, apesar de projeções indicarem uma vitória em massa dos antichavistas. A coalizão ainda anunciou novos protestos contra o governo. 

+Desmobilizados, opositores priorizam vitória em Estado símbolo do chavismo

Segundo a MUD, houve diversas frentes de fraude na votação. Entre as irregularidades denunciadas estão a mudança de mesas de votação de última hora em distritos opositores, intimidação de eleitores por coletivos armados leais ao governo e distribuição de alimentos e dinheiros em troca de votos. 

Ainda de acordo com os opositores, ao passo que  a mudança de locais de votação dificultou os votos contrários ao governo, o clientelismo ajudou a aumentar a participação eleitoral, estimada em 61% e a contar votos para o chavismo onde a derrota era certa. 

“Ontem foi partircularmente exagerado o nível de clientelismo por parte do Estado”, disse Carlos Ocariz, candidato derrotado da MUD em Miranda, Estado que abriga municípios da Grande Caracas. “Não foi uma luta contra o partido do governo, mas contra todo o Estado."

De acordo com Ocariz, observadores da MUD foram retirados de centros de votação e sinais de telefone e internet para transmissão de dados em redutos opositores foram cortados, além da mudança do registro de eleitores. “Isso vai muito além da comparação entre as nossas atas e as do Conselho Nacional Eleitoral”, acrescentou Ocariz. “Todo o sistema fraudulento fez com que os resultados fossem outros.”

Na noite desta segunda-feira, a oposição descartou a possibilidade de participar de qualquer reunião que busque um diálogo com o governo enquanto não for feita uma auditoria nas eleições regionais.

Cautela

Os opositores foram derrotados em Aragua, reduto chavista, e perdeu também Miranda, um dos símbolos do antichavismo por ter sido governado por Henrique Capriles. Duas derrotas que também surpreenderam a MUD foram em Carabobo e Lara. “Quando perdem, gritam fraude. Quando ganham, gritam ‘Fora, Maduro’”, ironizou o presidente. 

Na noite de ontem, a MUD alertou pouco antes da divulgação oficial dos resultados que os números do governo diferiam dos observados por seus militantes. A coalizão esperava vencer em 17 Estados. “Faremos protestos pacíficos para fazer valer nossos direitos”, concluiu o opositor. 

Apesar do protesto inicial, alguns setores da oposição reconhecem que a abstenção de eleitores opositores também prejudicou os resultados da MUD, mais do que qualquer irregularidade nas urnas. “Os fatos são que o governo teve um pouco menos de votos que as eleições parlamentares de 2015 e nós tivemos muito menos”, disse o parlamentar opositor José Guerra. “O que nos matou foi a abstenção.”

Analistas e monitores eleitorais também veem com cuidado as denúncias de fraude. “O processo ocorreu de maneira bem-sucedida e a vontade dos cidadãos foi respeitada”, disse o presidente do Conselho de Especialistas Eleitorais da América Latina, Nicanor Moscoso, convidado pelo chavismo para observar as eleições – monitores independentes não verificam as eleições no país desde 2006. 

Sanções

Durante os protestos contra o governo entre abril e julho, que deixaram 125 mortos, os opositores conseguiram alinhar a comunidade internacional contra o chavismo e diversas sanções foram implementadas contra o governo Maduro. Agora, a MUD tenta ampliar essas punições. 

Espanha e Canadá anunciaram que pretendem esclarecer se os resultados eleitorais do domingo foram limpos ou não. 

“Obviamente houve uma grande fraude”, disse David Osorio, de 21 anos, que saiu às ruas contra o governo em abril e perdeu um olho. “Mas não sei se voltar às ruas é a melhor opção. Vai acontecer a mesma coisa e muitos não estão dispostos. /AFP, EFE e REUTERS

 

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