'Mudança cambial pode levar à perda de eleições'

Para analista, Maduro não arriscará adotar a tão necessária desvalorização do bolívar forte com medo de ser derrotado

Entrevista com

O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2012 | 02h00

A quarta operação de Hugo Chávez em Cuba não terá impacto apenas na eleição regional de domingo. A ausência do presidente deve também adiar uma desvalorização do bolívar forte, considerada por analistas inevitável e de alto custo político. Na Venezuela, o câmbio é fixo e controlado pelo governo, que limita a compra de dólares para viagens ao exterior em US$ 3 mil por ano. A cotação oficial é de 4,30 bolívares por dólar, mas no mercado negro a moeda americana chega a ser cotada em 17 bolívares. Operações paralelas ocorrem até dentro do Aeroporto de Maiquetía, onde Chávez mobiliza sua equipe antes de cada viagem para Cuba. Ali, funcionários que cuidam das bagagens trocam clandestinamente cada dólar por 8 bolívares no setor de desembarque, com os turistas que chegam ao país. Logo, sobem as escadas até o setor de embarque, onde recebem 12 bolívares por dólar dos viajantes que partem. Segundo o cientista político José Vicente Carrasquero Aumaitre, da Universidade Simón Bolívar, essas distorções, além de estimular a ação de especuladores, aumentam o déficit fiscal do país. De acordo com o analista, Nicolás Maduro, chanceler e vice-presidente apontado por Chávez como sucessor caso não possa assumir o poder em 10 de janeiro, não arriscará uma mudança no câmbio sob o risco de ser derrotado se for convocada uma nova eleição presidencial. A seguir, os principais trechos da entrevista:

A nova operação de Hugo Chávez pode afetar a tendência de desvalorização da moeda, considerada iminente?

A desvalorização do bolívar e a aplicação de medidas fiscais adicionais são inevitáveis na Venezuela. Mas a possível necessidade de novas eleições presidenciais, caso Chávez se afaste, obriga um recuo para evitar custos políticos. O candidato apontado por Chávez não tem sua força e em um ambiente instável a aplicação de um pacote econômico poderia levar à perda de eleições. É preciso lembrar que a Venezuela vive uma dura crise econômica em meio à maior bonança petrolífera de sua história.

Qual o interesse do governo de manter a moeda artificialmente alta?

Ao manter o dólar congelado, o governo estancou os já altos níveis de inflação. Uma desvalorização significaria uma nova onda de alta de preços, com consequente descontentamento popular.

Quem mais ganha e quem mais perde com o câmbio como está?

Quem mais ganha é o governo, que converte sua imensa dívida interna, contraída em bolívares, em menos dólares. Perde a população, que precisa pagar preços maiores e sofre com a escassez de produtos de primeira necessidade. O controle de câmbio do governo não impediu a maior fuga de capitais da história do país. Há um benefício claro também para os especuladores.

Qual seria o impacto da desvalorização na inflação, na região e no petróleo?

A inflação é um problema crônico na Venezuela. O governo aprendeu a viver com ela e tirar proveito para ter menor disciplina fiscal. A desvalorização poderia fazer os produtos venezuelanos mais competitivos, reduzindo as importações de países da região. Em relação ao petróleo, não se prevê uma queda nos preços nos próximos meses.

Qual efeito teria uma mudança de presidência, no médio prazo, na política econômica?

Só haverá mudança na política econômica se houver troca do partido no poder. A concepção política atual tem um forte fator ideológico, que veio reduzir a capacidade de compra do venezuelano, obrigando-o a pagar os mais altos preços da região pelos alimentos. / R.C.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.