Mudança de governo nos EUA foi chance para pai brasileiro buscar o filho

Mudança de governo nos EUA foi chance para pai brasileiro buscar o filho

Jovem foi detido na Califórnia, mas as autoridades o liberaram antes que completasse 18 anos

Beatriz Bulla / CORRESPONDENTE, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2021 | 05h00

WASHINGTON - Henrique alugou e mobiliou um novo apartamento em Boston para esperar pela chegada do filho. Ficou combinado que o adolescente repetiria os passos do pai e tentaria entrar nos EUA através da fronteira com o México, após fracassadas tentativas de conseguir o visto americano. Mas, desta vez, a promessa de coiotes em Sardoá, cidade de 5 mil habitantes próxima a Governador Valadares, era que os percalços do caminho eram coisa do passado e, no novo governo americano, o jovem seria entregue ao pai sem riscos.

“Falaram que me entregariam ele na mão, mas a história foi outra”, conta Henrique, nome fictício de um mineiro de 40 anos, quase metade deles vividos nos EUA sem documentação. O filho, então com 17 anos, fez uma viagem menos turbulenta que a encarada pelo pai em 2003. Em vez de atravessar o Rio Grande e chegar pelo Texas, com dias sem comer, o jovem chegou de avião a Cancún e de lá foi para Tijuana – o México é um dos poucos países que não restringe a chegada de viajantes do Brasil na pandemia.

Após cruzar por terra a divisão entre México e Califórnia, foi apreendido por agentes de imigração e engrossou o número de brasileiros que chegaram aos EUA ilegalmente desde a posse de Joe Biden. “Ele não comia direito, não dormia. Podia fazer duas ligações por semana só. Fiquei muito preocupado, ele nunca tinha saído do Brasil”, conta o pai. “Não pensei se o governo era Trump, Obama, ou Biden na hora que ele chegou. Só queria liberar meu filho.”

“Ele veio nesse esquema ‘cai-cai’, que é o de todos”, conta o pai. “Você chega e se entrega para a imigração, eles tornam mais fácil a chegada se mãe ou pai estão nos EUA”, explica. 

Mas no caso deles o risco da estratégia dar errado era alto, pois o jovem completaria 18 anos logo após a chegada aos EUA. Com isso, deixaria de ser liberado para viver com o pai, por ser considerado adulto. “Até que o povo da imigração me ligou e falou: queremos que seu filho passe o aniversário com você. Queremos liberá-lo antes do aniversário”, conta Henrique, o que foi visto como uma conquista por organizações de apoio ao imigrante que ajudaram nas tratativas.

Especialistas e autoridades locais relatam que o tratamento aos imigrantes no governo Biden é menos hostil. Os agentes de imigração têm pedido até ajuda a diplomatas dos países de onde são os imigrantes, numa posição colaborativa, segundo relatos ao Estadão. Menores com pais nos EUA têm sido rapidamente liberados para ficar com a família, ainda que ninguém tenha documentação.

Henrique se gaba de ter deixado a pobreza para trás e, hoje, trabalhando com construção nos EUA, “ser considerado rico”. O filho, diz ele, veio em busca do mesmo: “Aqui ele vai estudar inglês e no futuro podemos montar uma empresa. Já a vida no Brasil continua muito difícil”.

 Entidades que trabalham no auxílio a imigrantes brasileiros que chegam sem documentos aos EUA indicam a demanda por mão de obra, com a recuperação da economia americana, após o início da vacinação contra a covid-19, como um dos fatores que mais atraem brasileiros ao país. Outro motivo, dizem esses grupos, é a troca de governo em janeiro.

Solange Paizante, coordenadora da Mantena Global Care, associação que apoia imigrantes em Newark, em New Jersey, também afirma que a garantia de um posto de trabalho tem motivado os brasileiros.

Muitos, especialmente homens, já chegaram com um contrato engatilhado. “Os restaurantes têm nos pedido mão de obra, pois estão voltando a operar e não encontram gente para trabalhar”, afirma a coordenadora da Mantena. Os dados de trabalho nos EUA mostram que, enquanto milhões ainda estão desempregados, há empregadores que têm dificuldade de achar mão de obra.

O número de imigrantes que cruzam a fronteira do México com os EUA bateu o índice mais alto nas últimas duas décadas, em março e em abril. Só no mês passado, 178 mil imigrantes foram apreendidos.

O ICE (Agência de Imigração e Fiscalização Alfandegária dos EUA) deportou menos de 3 mil imigrantes em abril, o patamar mais baixo da história para o mês, segundo o jornal Washington Post. Mas os voos com deportados seguem como uma estratégia. O grupo Witness at the Border contabilizou 21 voos em uma só semana em fevereiro.

A autorização sistemática para que os EUA enviem ao Brasil voos de deportação começou em 2019, no governo de Jair Bolsonaro. “Não há justificativa para o governo brasileiro autorizar esses voos. Todos os relatos indicam que os imigrantes viajaram algemados, em voos longuíssimos, com muitas paradas e sem o que comer”, disse Heloísa Galvão, coordenadora do Grupo Mulher Brasileira.

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