Mohamad Torokman/Reuters
Mohamad Torokman/Reuters
Imagem Lourival Sant'Anna
Colunista
Lourival Sant'Anna
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Acordo marca mudança de prioridades no Oriente Médio

Acordo diplomático entre Israel e Emirados é a assimilação de uma nova ordem na região, orientada pelo pragmatismo e pelos fatos consumados

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2020 | 20h00

O acordo diplomático entre Israel e os Emirados Árabes Unidos marca uma mudança de prioridades estratégicas dos países da região e das potências que influem sobre ela. É um passo orientado pelo pragmatismo e os fatos consumados no terreno, a assimilação de uma nova ordem no Oriente Médio.

Os atentados realizados pela Al-Qaeda e a ascensão do Estado Islâmico levaram à percepção, nos Estados Unidos e na Europa, de que o alinhamento automático com a Arábia Saudita e as outras monarquias árabes do Golfo Pérsico não atendia aos objetivos do Ocidente. A ideologia e o apoio material desses grupos vinham daquelas monarquias.

Essa constatação levou o então presidente Barack Obama a se distanciar desses países e, juntamente com Reino Unido, França e Alemanha, firmar em 2015 o acordo nuclear com o Irã. O movimento aguçou a percepção de vulnerabilidade de Israel e das monarquias árabes do Golfo (com exceção do Catar), que têm no Irã sua maior hipótese de ameaça.

O presidente Donald Trump assumiu com o objetivo de destruir o legado de Obama. Trump incluiu Israel e Arábia Saudita em sua primeira viagem internacional como presidente, em maio de 2017. Ali começava o processo que culminou no acordo que ele próprio anunciou na quinta-feira. 

Trump encarregou seu genro, Jared Kushner, de mediar o acordo. Kushner, de origem judaica, transitou entre Jerusalém, Abu Dhabi e Riad, com livre acesso ao primeiro-ministro Binyamin Netanyahu, ao emir Mohamed bin Zayed e ao príncipe herdeiro Mohamed bin Salman (MBS).

Há tempos que israelenses, sauditas, árabes e kuwaitianos nutrem interesses comuns e mantêm contatos sigilosos. Quando o Iraque invadiu o Kuwait, em 1990, o líder palestino Yasser Arafat ficou do lado de Saddam Hussein. A Arábia Saudita lidera essa aproximação. Mas, no papel de xerife de Meca e Medina, o reino saudita não pode se lançar no reconhecimento de um país que ocupa Jerusalém, a terceira cidade mais sagrada do Islã, sem antes testar o terreno. 

EAU e Arábia Saudita são aliados, por exemplo, na guerra no Iêmen contra a milícia xiita houthi, apoiada pelo Irã. Os árabes representarão os interesses sauditas perante Israel, até que MBS, que ainda trabalha na consolidação de sua posição de herdeiro do trono, decida dar esse passo. Considerando o perfil arrojado de MBS, virá mais cedo do que tarde.

Como ecossistema de inovação tecnológica e de agricultura altamente produtiva em áreas desérticas, Israel representa um modelo para as monarquias árabes do Golfo. Elas sabem que o petróleo perderá importância, e destinam bilhões de dólares à pesquisa tecnológica, a feiras de inovação e à criação de destinos turísticos, como fontes de receitas alternativas. 

Já do ponto de vista de Israel, a aceitação oficial de sua existência por parte desses países poderosos, tanto do ponto de vista econômico quanto cultural e religioso, representa um ganho geopolítico só comparável aos acordos de Camp David de 1978, que levaram à normalização de relações com Egito e Jordânia, também sob mediação americana. 

O preço político pago por Netanyahu foi modesto: a “suspensão” – temporária, como frisaram israelenses e americanos – da anexação das colônias judaicas na Cisjordânia. Essa anexação foi promessa de campanha de Netanyahu, e daí o acordo ter vindo depois das eleições em Israel. 

Para a maioria dos israelenses – com exceção dos colonos –, o benefício do acordo é muito maior que a concessão. Os grandes perdedores são os palestinos, que veem escapar pelas mãos uma carta valiosa em suas negociações com Israel. 

Para Donald Trump, é uma realização palpável de sua política externa, pobre em resultados. Desde George W. Bush, sucessivos presidentes americanos têm deixado um vácuo de poder no Iraque, Síria e Líbano, preenchido por Irã e Rússia. O acordo reforça o poder brando dos EUA e lhes devolve parcialmente a iniciativa no novo Oriente Médio.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.