'Mudança dos EUA tornou negociação nuclear possível'

Há meses engajados em uma negociação sobre o programa nuclear iraniano, EUA e Irã deram um passo inédito que pode permitir a retomada das relações, congeladas desde a crise dos reféns, no fim dos anos 70. A análise é do iraniano-americano Kayvon Afshari, diretor de comunicação do Conselho Americano-Iraniano (New Jersey), centro de estudo dedicado a melhorar as relações entre os dois países. Em entrevista ao Estado, ele diz que não foram as sanções, nem a economia que forçou o Irã a negociar, mas a mudança de atitude dos EUA com relação ao país.

Entrevista com

Kayvon Afshari, diretor de comunicação do Conselho Americano-Iraniano

Renata Tranches , O Estado de S.Paulo

12 de julho de 2015 | 02h03

Independentemente do resultado nas negociações, podemos considerar o diálogo sobre o programa nuclear iraniano positivo para as relações EUA e Irã?

As negociações que começaram no fim de 2013 são, sem dúvida nenhuma, um passo positivo para as relações entre os EUA e o Irã que, infelizmente, passaram desfiguradas nos últimos 36 anos. Enquanto as negociações têm centrado quase que exclusivamente na questão nuclear, elas têm tornado "normal" para os dois dialogarem diretamente. O secretário de Estado americano, John Kerry, e o ministro das Relações Exteriores do Irã, Javad Zarif, têm trabalhado juntos, algo que seria impensável alguns anos atrás.

Como o sr. qualificaria este momento na história dos dois países nas últimas décadas?

Eu qualificaria essa mudança na direção do engajamento como um grande avanço para as relações Irã-EUA. A questão-chave será se os dois lados, juntamente com os outros membros do P5+1, poderão alcançar ou não um acordo de sucesso. Se puderem, então isso mostrará que a diplomacia e o engajamento produzem melhores resultados do que ameaças e isolamento.

Veremos progressos antes da saída de Obama da Casa Branca?

A eleição presidencial iraniana em 2013 que elegeu o presidente moderado Hassan Rohani foi, certamente, um fator crucial para reverter a trajetória das relações EUA-Irã. Na verdade, foi logo depois dessa eleição que os presidentes Obama e Rohani protagonizaram uma histórica conversa telefônica, algo que não ocorreu nas últimas três décadas. A presidência de (Mahmoud) Ahmadinejad ficou marcada nos EUA por sua terrível e incendiária retórica. Como resultado, foi quase impossível para a Casa Branca sentar em público com um inflamatório presidente iraniano. Na verdade, eles chegaram a manter reuniões sob o governo Ahmadinejad, mas foram conversas secretas em Omã. Rohani e Zarif não têm essa retórica horrível, isso tornou possível para os EUA testarem o engajamento com o Irã.

Isso também abriu caminho para as negociações nucleares?

A razão pela qual a recente rodada de negociações se mostrou com mais sucesso do que as tentativas anteriores não foi pelo fato de o governo Rohani ser mais moderado, mas sim porque os EUA deixaram sua posição de exigir um enriquecimento zero de urânio para um discurso que previa enriquecimento limitado. Como resultado dessa mudança crucial de atitude, foi possível para iranianos, americanos e o restante dos negociadores encontrar um ponto comum para iniciar as conversações.

Elas serão frutíferas?

Eles estão lidando com questões de alto teor técnico que certamente levarão tempo para chegar a um consenso. Como resultado na mudança de posição americana, estou otimista que o P5+1 e o Irã conseguirão chegar a um acordo amplo, mesmo se eles tiveram de estender novamente o prazo. Essencialmente, eles têm até o fim da presidência Obama para solidificar um acordo. Enquanto ainda há várias outras questões que separam os dois lados, alcançar um acordo nuclear será um passo positivo muito significativo para as relações entre os EUA e o Irã.

Analistas sugerem que a situação econômica forçou o Irã a negociar. O sr. concorda?

Esse é um ponto muito importante: as sanções e a economia iraniana não forçaram o país a ir à mesa de negociações. Esse é um perigoso e falso mito que continua a ser repetido nos Estados Unidos e em outros lugares. A verdade é que os iranianos têm participado das negociações com os europeus desde, pelo menos, 2003, em uma tentativa de resolver a questão nuclear. Naquela época, os americanos não se engajariam diretamente com as conversações. Esse diálogo não teve sucesso, pois os Estados Unidos disseram aos europeus que apenas aceitariam um acordo que falasse em enriquecimento zero de urânio. De novo, a razão principal que tornou essa última rodada de negociação mais frutífera é o fato de os Estados Unidos mudarem sua posição e passarem a aceitar o enriquecimento limitado de urânio.

Qual seria o impacto de um acordo as relações entre os EUA e os países do Oriente Médio, especialmente Arábia Saudita e Israel, dois críticos a ele?

A Arábia Saudita e Israel não são favoráveis aos termos desse acordo. Cada um tem suas razões para ver a república islâmica com suspeitas. Israel faz objeção ao papel que o governo iraniano desempenha em apoio ao Hamas (na Faixa de Gaza) e ao Hezbollah (no Líbano), assim como a retórica horrorosa contra Israel. No entanto, se um acordo for assinado e o Irã passar a ficar sob uma série de obrigações, mesmo se Israel reclamar publicamente do acordo, provavelmente se posicionará ao lado dos EUA.

E os sauditas?

Os sauditas têm razões sectárias e geopolíticas para ver a república islâmica xiita com suspeitas. Eles estão em lados opostos no conflito do Iêmen e do Iraque. Mas as reclamações sauditas não são nem de perto altas como as de Israel sobre o acordo. No entanto, mais uma vez, mesmo se eles não gostarem, provavelmente vão apoiar o acordo.

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