Mudança em Caracas, transição nas Américas

Sombra de Chávez seguirá sobre América Latina por muito tempo, mas uma era está chegando ao fim

ERIC , FARNSWORTH , ESPECIAL PARA O ESTADO, É VICE-PRESIDENTE DO , AMERICAS SOCIETY/COUNCIL , OF THE AMERICAS, ERIC , FARNSWORTH , ESPECIAL PARA O ESTADO, É VICE-PRESIDENTE DO , AMERICAS SOCIETY/COUNCIL , OF THE AMERICAS, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2013 | 14h38

Análise

Seja qual for o estado de saúde do presidente venezuelano, Hugo Chávez, ou o tempo que lhe resta (o silêncio dos governos venezuelano e cubano a esse respeito é vergonhoso), a transição já está em curso, enquanto o Hemisfério encara a realidade de um futuro sem o líder de Caracas. O espectro de Chávez continuará sobre a Venezuela e toda a região durante muito tempo após sua morte, como o gigantesco retrato de Mao olha simbolicamente para a China do alto da Praça Tiananmen.

Pelo menos no curto prazo, a tentação dos venezuelanos que aspiram a uma liderança política será copiar e intensificar o programa bolivariano. A legitimidade política do próximo líder da Venezuela, seja ele o sucessor designado Nicolás Maduro ou uma outra pessoa, virá de sua capacidade de convencer o eleitorado de que pode cumprir o legado de Chávez melhor que outros.

Isso explica o grande número de funcionários venezuelanos de alto escalão que foram a Cuba para velar à cabeceira de Chávez. Mas duas alternativas distintas são possíveis, talvez depois de um período de transição. Uma seria um líder que endureça a situação política e econômica como uma maneira de consolidar sua posição, manobrando ao mesmo tempo para se apresentar como herdeiro lógico de Chávez. A outra seria um líder à la Deng Xiaoping, que, embora permanecesse leal a Mao, afirmava que o caminho econômico da China era insustentável e exigia uma mudança fundamental, ainda que gradual - não importava "se o gato era preto ou branco, mas que caçasse ratos".

Essa escolha iminente será crucial não apenas para a Venezuela, mas para o restante da região. Evidentemente, Caracas sob o governo de Chávez trabalhou mais do que qualquer outra nação para desenvolver um modelo alternativo de desenvolvimento econômico e político hemisférico, forjando uma aliança com nações como Bolívia, Equador e Nicarágua, que é fundamentalmente antiamericana. Também promoveu um modelo econômico populista que desfruta de apoio político, mas é insustentável, e precisará de ajustes sob o novo líder. Ainda, acolheu atores de fora da região, como o Irã, na América Latina, de maneira provocadora e inútil.

Ao mesmo tempo, a diplomacia exercida pela Venezuela na área das finanças e do petróleo em toda a região reduziu o papel das organizações pan regionais tradicionais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento ou mesmo o Fundo Monetário Internacional, enquanto o agressivo protecionismo do país minava instituições políticas como a Cúpula das Américas e a Organização dos Estados Americanos. Isso tornou impossível a busca de um programa hemisférico que gozasse de consenso no atual contexto, prejudicando também importantes organismos como a Comissão Interamericana dos Direitos Humanos.

A posição internacional da Venezuela simplesmente complicou a condução dos assuntos regionais. As transições em Honduras, em 2009, e no Paraguai, no ano passado, são evidência disso. Uma terceira prova é o apoio político e financeiro da Venezuela a candidatos em eleições peruanas e outras disputas. Uma quarta evidência é o apoio da Venezuela à guerrilha colombiana e outros atores não estatais. Dependendo da estratégia adotada pelo sucessor de Chávez, a condução dos assuntos internacionais poderá ser mais confortável para a maioria - incluindo o Brasil, que tem tentado manter o comportamento venezuelano dentro de um certo limite, em particular seu empenho para inserir Caracas como membro pleno no Mercosul, ou continuará sendo difícil.

Mas levará algum tempo para essas tendências se tornarem totalmente aparentes enquanto o novo líder da Venezuela estariver concentrado em consolidar sua própria base de poder. Neste intervalo, outros na região, incluindo o presidente Rafael Correa, do Equador, já procuram se candidatar ao hipotético papel de líder das nações que formam a aliança bolivariana.

Como resultado, seja qual for o caminho seguido pela Venezuela, o chavismo e a sombra de Chávez continuarão na região durante um longo tempo.

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