Mudança fica em mãos de veteranos

Obama promete transformar política tradicional, mas recorre à experiência de velhos caciques

John Harwood, The New York Times *, O Estadao de S.Paulo

27 de novembro de 2008 | 00h00

Durante a campanha à presidência, Barack Obama gostava de dizer que "a mudança não sairá de Washington - a mudança irá para Washington". Três semanas após a eleição, ele está pondo à prova o entendimento dos americanos sobre a afirmação ao montar um governo repleto de veteranos da era política que prometeu suplantar. O caso que mostra de forma mais extraordinária como ele está formando um gabinete de veteranos foi a escolha para o Departamento de Estado de Hillary Clinton, sua principal rival nas primárias e mulher do último presidente democrata. Obama levará algumas figuras de Chicago para a Casa Branca, como seus antigos assessores Valerie Jarrett e David Axelrod. Mas, apesar de ter prometido virar a página da política polarizada, recentemente deixou claro que os que prestaram serviços nos últimos 20 anos não só serão colaboradores aceitáveis, mas também necessários para seus propósitos.Como é possível que ele sinta-se atraído pelos mesmos esquemas convencionais do poder em Washington que ele se comprometeu a abandonar?No caso de Hillary, Obama está trazendo para seu lado uma formidável rival, calculando que o eleitorado, o cérebro e a experiência dessa mulher superam o fato de ela ter estado, segundo ele, do lado errado quando votou autorizando a guerra do Iraque. Na presidência, Obama vai explorar a determinação dela para executar suas iniciativas diplomáticas - algumas das quais, segundo disse Hillary durante as primárias, "ingênuas e pouco prudentes".O mesmo aconteceu com a escolha de Tom Daschle para chefiar a reforma do sistema de saúde. No Senado, Daschle pôde ver de muito perto o desmoronamento da política do presidente Bill Clinton referente à cobertura universal.O principal candidato de Obama a secretário de Justiça, Eric Holder, viveu a turbulência do Departamento de Justiça de Clinton. Seu possível chefe de Orçamento, Peter Orszag, hoje no mesmo cargo no Congresso, presenciou as disputas partidárias sobre o orçamento nos anos Clinton e Bush. Seu chefe de Gabinete, Rahm Emanuel, trabalhou na Casa Branca de Clinton para obter a aprovação do Acordo de Livre Comércio para a América do Norte, que Obama, quando candidato, criticou. O indicado ao Tesouro, Timothy Geithner, é considerado um político da nova geração. No entanto, Geithner já trabalhou no Tesouro com três presidentes, entre eles Clinton. Mesmo Summers vai entrar no gabinete, como presidente do Conselho Econômico. E Paul Volcker, de 81 anos e duas vezes presidente do Federal Reserve (banco central americano), ganhou um conselho econômico para presidir.Assessores de Obama afirmam que ele não está reduzindo sua visão da "mudança". Ele teria simplesmente concluído que a experiência dessas pessoas pode aumentar a probabilidade de atingir seus objetivos. "Ele não está procurando pessoas que lhe apresentem uma visão", disse Axelrod, um dos principais assessores de Obama. "Mas formará um governo composto por pessoas capazes de pôr em prática sua visão."Essa nova formulação não leva em conta uma visão prudente de Washington, onde se diz que "as pessoas são a política", pressupondo que a lealdade e os gostos políticos da equipe presidencial influenciam o que essa equipe é capaz de fazer.Como ele próprio é a encarnação de uma mudança histórica, Obama consegue muitas vezes evitar sugestões simbólicas na escolha de seus subordinados. Mas ele tem poucas possibilidades de escolha, a não ser usar a infra-estrutura da era Clinton."É preciso ser muito jovem ou ingênuo para acreditar que a mudança começa com uma limpeza total da mesa", observou William Galston, assessor de Política Interna no governo Clinton, que está fora do círculo de Obama. "A melhor maneira de garantir que nada mude é nomear pessoas incapazes de realizar a mudança - por mais bem-intencionadas que elas sejam". Obama acrescentou que "está apostando todas suas fichas para garantir que essa mudança ocorra concretamente". Apesar da crise econômica, ele não voltará atrás em seus planos de ampliar a cobertura de saúde, cortar impostos da classe média, investir em energia alternativa e infra-estrutura. "Vivemos um momento inusitado, em que estamos aprendendo a diferenciar um presidente preocupado com a transição de um presidente preocupado com a transformação", disse Andy Stern, líder trabalhista. Obama seria o segundo tipo de presidente.*John Harwood é comentarista político,''DREAM TEAM'' ECONÔMICOSecretário do Tesouro: Timothy Geithner, presidente do FED de Nova York, foi do FMI e do Comitê de Política Monetária. Será o equivalente ao ministro da FazendaPresidente do Conselho Econômico Nacional: Lawrence Summers, foi economista-chefe do Banco Mundial e secretário do Tesouro de Bill Clinton. Coordenará as políticas econômicas dos EUA Presidente do Comitê de Recuperação Econômica: Paul Volcker presidiu o FED duas vezes. Seu cargo foi criado por Obama para combater a crise atual

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