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Mudança na diplomacia

O poderoso príncipe saudita Turki al-Faisal está contrariado. "Uma das ironias que podem emergir desta situação será ver as Guardas Revolucionárias iranianas combater com os drones americanos para matar iraquianos", disse ele em Roma. E acrescentou: "Isso vai contra qualquer lógica".

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2014 | 02h01

Ele constatou com pavor que o turbilhão de jihadistas sunitas avançando para Bagdá, no Iraque, tem o efeito assombroso de juntar no mesmo campo os EUA e o Irã, ao passo que até agora a geografia complicada do Oriente Médio tinha como base um dogma: Irã e EUA, inimigos irreconciliáveis.

A Arábia Saudita, rival do Irã, congratulava-se com a rivalidade, pois podia exercer seu controle sobre o Golfo. Imaginar, agora, iranianos e americanos unidos para bloquear o caminho para Bagdá dos jihadistas sunitas é um pesadelo para a Arábia Saudita.

Mas a busca de uma relação mais tranquila entre Washington e Teerã obedece a certa lógica. Corrigirá os anos equivocados durante os quais o Ocidente provavelmente errou de alvo. Quando quis castigar os responsáveis pelos atentados do 11 de Setembro, o Ocidente atacou os Estados governados por ditadores ou dominados por xiitas. EUA lançaram sua ira contra Iraque, Irã, Líbia e Síria. Ora, os reais inimigos do Ocidente estavam em outra parte. Aqueles que cometeram os atentados são sunitas fanáticos que se inspiram no "wahabismo" saudita.

Claro que ditadores do estilo de Kadafi, Saddam ou Assad são repugnantes e certamente o regime teocrático xiita instalado no Irã foi durante muito tempo contra o Ocidente, além de perigoso. Mas se todos esses ditadores e líderes xiitas foram capazes do pior, não atacaram o Ocidente. Os que juraram morte ao Ocidente são sunitas, jihadistas fanáticos que hoje lançam suas legiões contra Bagdá para estabelecer ali a "sharia", o ódio e a morte.

Os EUA parecem ter entendido o equívoco. Mesmo o senador Lindsay Graham, um "falcão republicano", disse esperar que americanos e iranianos organizem uma resposta comum e impeçam que seja criado no coração do Oriente Médio um califado islamista, eliminando as fronteiras tradicionais e reagrupando o Iraque e parte da Síria.

O momento dessa mudança de orientação diplomática parece favorável. A fase do antiamericanismo incentivado no Irã pelo aiatolá Khomeini ou pelo presidente Ahmadinejad é coisa do passado. Melhor ainda. Constatamos que esses 35 anos de ódio contra os EUA "depuraram" os espíritos iranianos. Hoje, a população iraniana é bem mais pró-americana.

Um homem com mais abertura foi eleito em Teerã, na pessoa de Hassan Rohani, que tem adotado medidas para resolver o litígio em torno do programa nuclear. As mulheres iranianas, se ainda estão longe do paraíso, não parecem estar no inferno. Beneficiam-se de uma certa liberdade profissional e pessoal. Os cristãos de Teerã praticam tranquilamente sua religião.

O avanço espetacular dos jihadistas sunitas na direção do Iraque parece anunciar profundas mudanças geoestratégicas e compreendemos por que a Arábia Saudita, potência sunita, teme uma aproximação entre Irã e EUA. Na realidade, é o controle do Golfo que está nas entrelinhas da agitação diplomática atual.

Não seria mau se os EUA aproveitassem essas "mudanças de estratégia diplomática" para convencer seus aliados turcos e sauditas a cessar toda ajuda, visível ou simulada, aos jihadistas sunitas que operam na Síria e atualmente no Iraque. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

É CORRESPONDENTE EM PARIS

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