Mudança na economia é inevitável, só se discute o ritmo

O próximo governo argentino herdará um quadro econômico complexo. Não se discutem as medidas a ser tomadas. O que muda entre as duas campanhas é a sequência e a intensidade.

Lucio Castro*, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2015 | 03h00

A Argentina não cresce, tem inflação elevada, um déficit fiscal que este ano deve chegar a 7% do PIB e as reservas - estimadas, hoje, em US$ 25,9 bilhões - são baixas. Para completar, faltam dados oficiais confiáveis.

O governo escolheu controlar o câmbio para frear a inflação, enquanto os emergentes e parceiros comerciais desvalorizaram suas moedas. Há alguns meses, poderíamos pensar em desvalorização gradual. Hoje, há margem menor para isso, pelos cenários externo e interno. Uma mexida no câmbio levará ao rearranjo da balança comercial. 

Há muitas outras questões. Uma é financiar importações, compostas em 80% por energia, bens de capital e insumos. Outra é o déficit fiscal. O Banco Central é hoje um escravo do Tesouro. Para aumentar o gasto, aumenta a emissão de moeda.

A alteração mais complexa, o “elefante na loja de cristais”, é a política fiscal, porque 60% do gasto público está em aposentadorias, pensões e transferências sociais. A negativa dos candidatos sobre mexer nos subsídios ao transporte e ao gás, por exemplo, é discurso eleitoral. Ambos sabem que esses subsídios são insustentáveis - este ano, consumirão 5% do PIB. 

Para sair desse ciclo, algo essencial é colocar o país de volta no mercado internacional de crédito, do qual está isolado. A única alternativa é um acordo com os “holdouts” (chamados pelo kirchnerismo de fundos abutres), credores da dívida argentina que não aceitaram a renegociação e exigem pagamento integral. 

Olhando para esse fim de ciclo e comparando-o com os últimos 40 anos, o que há de positivo é um nível de endividamento público pequeno, que não chega a 20% do PIB. Há também um nível de desemprego baixo, embora economistas discutam se é porque a população não está procurando ou o porque desemprego está mascarado.

*LÚCIO CASTRO É DIRETOR DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO DO CENTRO DE IMPLANTAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS PARA EQUIDADE E CRESCIMENTO (CIPPEC)

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