Mudança saudita

Aos poucos, país mais conservador do mundo árabe está se abrindo, com mulheres e jovens à frente do processo

Ian Bremmer, International Herald Tribune, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2010 | 00h00

A Arábia Saudita continua sendo uma sociedade profundamente conservadora, mas as rachaduras começam a aparecer. O Rei Abdullah poderá ser lembrado um dia como o homem que introduziu uma verdadeira transformação.

Quando o passageiro cochila num voo para a Arábia Saudita, descobre ao acordar que as mulheres sauditas, vestidas à maneira ocidental no início da viagem, puseram seus trajes tradicionais preparando-se para desembarcar. Constatei numa recente visita. Antes da viagem, pedi ao governo que iria me hospedar um encontro com empresárias sauditas. Fiquei agradavelmente surpreso quando meu pedido foi rapidamente aprovado, mas ainda mais intrigado pelo encontro em si.

O que me surpreendeu não foi a clareza, a perspicácia e a energia com as quais estas empresárias sauditas falaram, havia visto isto antes, mas a facilidade e informalidade com que externavam suas opiniões, às vezes de modo provocante, em um local público de Riad.

Perguntei a uma jovem empresária saudita o que ela achava do clima de negócios em seu país. Como a maioria do grupo, ela pareceu bem mais relaxada numa conversação cara a cara com um homem do que já havia observado anteriormente no reino. Seus comentários revelaram opiniões fortes e um malicioso senso de humor. Entre outras coisas, ela me confiou que se sentia mais à vontade do que de costume em roupas formais porque estava usando uma calça de ginástica por baixo.

Na realidade, muitas coisas estão ocorrendo por baixo da superfície da sociedade saudita. O Rei Abdullah ainda governa um país profundamente conservador. Mas tanto a sociedade quanto a economia do reino revelam drásticas transformações nos quatro anos e meio desde que ele assumiu o poder.

Em primeiro lugar, há uma evolução substancial em relação à geração passada nos costumes sociais e nas atitudes em relação à economia que agora separam os jovens sauditas dos seus pais.

As implicações desse incipiente hiato de gerações se manifestam em muitos aspectos da sociedade saudita. Vi uma mistura muito maior de jovens em público nesta visita do que me pareceu evidente há dois anos - e ouvi mais perguntas deles sobre os padrões sociais de outros países (particularmente nos regimes mais liberais do Golfo).

As atitudes em relação ao casamento também mudaram. No passado, as noivas e os noivos em casamentos arranjados frequentemente se encontravam pela primeira vez no dia do noivado. O casamento acontecia logo depois. Hoje, muitos casais nos centros urbanos se encontram várias vezes - na presença da família, evidentemente - antes de assumir o compromisso, e têm encontros a sós antes do casamento.

Mas a principal mudança para estas jovens ambiciosas é a ampliação das oportunidades no campo da educação. Em setembro de 2009, foi inaugurada a Universidade de Ciência e Tecnologia Rei Abdullah, na qual, pela primeira vez, estudantes sauditas de ambos os sexos poderiam assistir às aulas juntos. A polícia religiosa não é permitida no campus. Agora, as mulheres também podem dirigir. Para um ocidental, essas reformas podem parecer estranhas. Para a Arábia Saudita, são notáveis.

Atualmente, as mulheres ingressam nas universidades sauditas em números recordes, embora as filhas da elite muito provavelmente devam estudar no exterior. Há um esforço concentrado do governo para suprir o déficit de mão de obra levando um número maior de mulheres para o mercado de trabalho - e não apenas em funções tradicionais como professoras ou enfermeiras. Este ano, as faculdades de Direito sauditas formarão pela primeira vez grandes números de mulheres. E ao mesmo tempo há uma quantidade surpreendente de empresas em operação, criadas recentemente por mulheres.

Não surpreenderá se o Rei Abdullah for lembrado um dia como o homem que introduziu a verdadeira transformação em um país que necessitava enormemente transformar-se. E não surpreenderá se as mulheres sauditas forem quem mais aproveitará das novas oportunidades.

IAN BREMMER É PRESIDENTE DA CONSULTORIA EURASIA GROUP

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