Mudanças no serviço secreto podem ajudar a explicar falha

A atual ênfase à tecnologia em detrimento das operações humanas nos serviços de inteligência, a falta de recursos e o excesso de informações podem ajudar a explicar a falha do serviço secreto dos Estados Unidos em impedir o pior ataque terrorista em solo norte-americano."Nosso serviço de inteligência está enfraquecido, em parte, porque não estamos contratando, não estamos pagando nem estamos analisando os dados que coletamos", diz Anthony Cordesman, especialista em antiterrorismo do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, com sede em Washington.CortesSeus comentários fizeram eco às declarações do ex-secretário de Estado James A. Baker III, que disse à CNN que "seria justo levar em conta os cortes em algumas áreas do serviço de inteligência, especialmente nas áreas de inteligência humana".É mais fácil falar do que agir, na opinião de Gideon Rose, editor da revista Foreign Affairs. "É supreendentemente difícil encontrar as pessoas certas para se infiltrar nesses grupos", disse Rose. "Mais do que qualquer outra mudança, é preciso agir contra a inércia burocrática de Washington."Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos começaram a investir bilhões de dólares em imagens de satélites, interceptação de comunicações e equipamentos de reconhecimento.MonitoramentoAs ferramentas também eram úteis para monitorar os movimentos de grupos como a Organização para a Libertação da palestina (OLP) e o Exército Republicano Irlandês (IRA) - que tradicionalmente possuíam estruturas com pouca tecnologia e eram relativamente fáceis de seguir, dizem especialistas em inteligência dos Estados Unidos.Mas os gastos extraordinários levaram a cortes no pessoal da CIA e da Agência de Segurança Nacional (NSA), braço de escuta clandestina internacional do país.Com o fim da Guerra Fria, o número de grupos cresceu dez vezes em meio ao advento da revolução digital, fazendo com que as comunicações globais ficassem repentinamente baratas e seguras.Enquanto isso, o número de pessoas trabalhando na inteligência norte-americana continuava o mesmo.CriptografiaNos dias de hoje, qualquer um pode obter de graça pela Internet sofisticados programas de criptografia, dificultando o acesso a eventuais comunicações entre grupos terroristas.Um relatório recente dizia que Osama bin Laden, suspeito dos ataques de terça-feira, utilizou tecnologias complexas de estaganografia para enviar fotos pela Internet contendo mensagens escondidas.No começo do ano, o general Mike Hayden, chefe da Agência de Segurança Nacional, reconheceu em entrevista ao programa 60 Minutes II, da CBS, que sua agência está "aquém da curva no acompanhamento da revolução global das telecomunicações". E acrescentou: "Osama bin Laden possui tecnologia melhor" que a utilizada pela NSA.Baixa tecnologia?Sandy Berger, ex-conselheiro de segurança nacional, disse nesta quinta-feira que os terroristas responsáveis pelos atentados de terça-feira dispunham "de um nível de sofisticação que vai além de onde qualquer pensamento pode chegar".Ainda assim, muitos especialistas acreditam que os ativistas utilizaram meios de baixa tecnologia para iludir os serviços ocidentais de inteligência.Wayne Masden, ex-agente da NSA, diz acreditar que os terroristas evitaram mensagens de correio eletrônico e telefones celulares, dando preferência a serviços de correio e locais seguros.Ele acredita ser provável que os terroristas de cada um dos quatro aviões seqüestrados na terça-feira desconheciam a existência dos outros.Infiltração"As células terroristas são mantidas pequenas e independentes. Desta forma, as agências de inteligência não conseguem estabelecer nenhuma espécie de ligação", afirma Madsen.Outros dizem que o maior problema não está na área tecnológica, mas na falta de capacidade de infiltração em organizações fechadas como a de Bin Laden."Não é fácil chegar à caverna de Bin Laden e dizer que queremos entrar para o grupo", diz Frank Culluffo, analista do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais."É duro conseguir que norte-americanos se infiltrem. Por isso, precisamos recrutar pessoas que dominam o idioma e compreendem a cultura para obter acesso a essas organizações.CooperaçãoPara alguns especialistas, a coleta de informações, para ser eficiente, deve envolver a coordenação entre a escuta clandestina e a espionagem. Em termos práticos, seria necessária a cooperação entre a NSA e a CIA.Madsen diz haver motivos para crer que a NSA recebeu boas informações que comprovariam o envolvimento de Bin Laden nos ataques de terça-feira, mas o material colhido não foi reconhecido desta forma."Há sobrecarga de informações e não me surpreende a dificuldade em processar, priorizar e dividir as informações", acredita Ian Lesser, da Rand Corporation.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.