Mudanças ocorrem

Paul Krugman*, The New York Times

23 Janeiro 2016 | 02h01

Ainda existem alguns especialistas determinados a fingir que os dois grandes partidos dos Estados Unidos são simétricos - igualmente dispostos a enfrentar a realidade, igualmente empurrados para posições extremas por interesses especiais e por partidários fanáticos. Obviamente, isso é um absurdo. O programa Planned Parenthood não é a mesma coisa que os irmãos Koch, nem Bernie Sanders é o equivalente moral de Ted Cruz. E, de nenhuma forma há uma contrapartida democrata a Donald Trump.

Além disso, quando os autoproclamados especialistas de centro tornam-se mais realistas a respeito das políticas que desejam ver adotadas ficam confusos e evitam admitir que o que descrevem são as posições de um cara chamado Barack Obama.

Ainda assim, há algumas correntes em nossa vida política que permeiam os dois partidos. Uma delas é a persistente ilusão de que uma maioria escondida dos eleitores americanos ou apoiam ou podem ser persuadidos a apoiar políticas radicais; para isso bastaria que a pessoa certa conseguisse induzi-los com o devido fervor. Pode-se ver isso na direita, entre conservadores linha-dura, que afirmam que somente a covardia dos líderes republicanos impede a reversão dos programas progressistas estabelecidos nas últimas gerações.

Na verdade pode-se ver também uma versão dessa tendência entre a elite republicana bem nascida, que continua a imaginar que representa a corrente principal do partido, embora as pesquisas mostrem que cerca de dois terços dos prováveis eleitores das primárias apoiem Trump, Cruz ou Ben Carson.

Por outro lado, na esquerda há sempre um contingente de eleitores idealistas ansiosos em acreditar que um líder suficientemente bem-intencionado pode invocar os melhores anjos da natureza americana e persuadir o público em geral a apoiar uma reforma radical em nossas instituições.

Em 2008 esse contingente se juntou a Obama; agora apoia Sanders, que adotou uma posição tão purista que outro dia referiu-se ao Planned Parenthood (que apoia Hillary Clinton) como parte do "establishment".

Mas como Obama descobriu, assim que assumiu o cargo, a retórica transformacional não é a forma como as mudanças acontecem. Isso não quer dizer que ele é um fracasso. Pelo contrário, ele tem sido um presidente extremamente consequente, que faz mais para o avanço de uma agenda progressiva do que qualquer um desde Lyndon Johnson.

Ainda assim, suas conquistas têm dependido, a cada estágio, da aceitação do conceito de que alguma coisa é melhor do que nada: reforma na saúde que torna o sistema majoritariamente privado; reforma financeira que restringe seriamente os abusos de Wall Street, sem realmente prejudicar seu poderio; impostos mais altos sobre os ricos, mas sem um ataque em grande escala à desigualdade.

Existe um tipo de pequena disputa entre os democratas sobre quem pode afirmar ser o verdadeiro herdeiro de Obama, Sanders ou Hillary? Mas a resposta é óbvia: Sanders é o herdeiro do candidato Obama, mas Hillary é a herdeira do presidente Obama.

Obama poderia ser mais transformador? Talvez ele pudesse fazer mais pelas beiradas, mas a verdade é que ele foi eleito sob as circunstâncias mais favoráveis possíveis: uma crise financeira que desacreditou seu antecessor, mas ainda enfrenta uma oposição desde o primeiro dia de governo.

A pergunta que os partidários de Sanders deveriam fazer é: "quando sua teoria de mudanças funcionou?" Mesmo Franklin D. Roosevelt, que saiu das profundezas da Grande Depressão até alcançar ampla maioria, teve de ser politicamente pragmático e trabalhar não apenas com grupos especiais de interesse, mas também com racistas do sul.

Lembre-se, também, que as instituições que Roosevelt criou eram suplementares, não substitutivas: a seguridade social não substituiu o sistema privado de aposentadoria, ao contrário da proposta de Sanders de substituir o seguro de saúde por um sistema totalmente bancado pelo governo. Ah, e o sistema de seguridade social originalmente cobria apenas metade da força de trabalho e, como resultado, excluía principalmente afro-americanos.

Apenas para deixar claro: não estou dizendo que alguém como Sanders seja inelegível, embora agentes republicanos prefiram enfrentá-lo a Hillary. Eles sabem que a atual posição de Sanders nas pesquisas é inexpressiva e o democrata nunca enfrentou a máquina de ataque republicana. Mas, mesmo se ele se tornar presidente, vai acabar enfrentando as mesmas realidades duras que restringem as ações de Obama.

A questão é que embora o idealismo seja algo bom não se trata de uma virtude a menos que seja acompanhada de um realismo pragmático a respeito dos meios para atingir os fins. Isso é verdade mesmo quando, como Roosevelt, enfrenta-se um turbilhão político no governo. Isso é ainda mais verdade para um democrata moderno, que terá sorte se seu partido controlar ao menos uma das Casas do Congresso em algum momento. Desculpe-me, mas não há nada de nobre em ver seus valores derrotados porque você preferiu ter sonhos felizes em vez de pensar sobre fins e meios para chegar a eles. Não deixe que o idealismo se transforme em autoindulgência destrutiva. / TRADUÇÃO DE PRISCILA ARONE

*É colunista

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