Mugabe diz que África não tem coragem de derrubá-lo

Surto de cólera no Ziumbábue reforça a pressão para a saída do presidente; número de mortos chega a 1.123

Agências internacionais,

19 de dezembro de 2008 | 07h58

O presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, disse que os países africanos não têm coragem de usar a força militar para tirá-lo do poder, informou o jornal estatal Herald nesta sexta-feira, 19. "Como podem os líderes africanos derrubarem Mugabe um dia e organizarem um Exército? Não é fácil", teria dito Mugabe em uma reunião do comitê central de seu partido na quinta-feira, segundo o jornal. "Não conheço nenhum país africano que seja corajoso o bastante para fazer isso."   Líder da independência do país em 1980, Mugabe prometeu, com um discurso conciliador, a tolerância racial para um povo que viveu 100 anos sob o colonialismo britânico e outros 15 debaixo do porrete do regime racista de Ian Smith. A promessa pôs Mugabe na lista de favoritos ao Prêmio Nobel da Paz e os diplomatas estrangeiros passaram a se referir ao Zimbábue como a "Suíça da África". Hoje, 30 anos depois, o arauto da esperança virou o homem mais odiado da África. Com uma inflação de 1 trilhão por cento ao ano e uma epidemia de cólera que já matou mil pessoas, muitos zimbabuanos estão comendo ratos para sobreviver em aldeias no interior.   O impasse político persiste, funcionários públicos estão com salários atrasados e a oferta de alimentos vem minguando. O número de mortes da epidemia de cólera no Zimbábue cresceu para 1.123 e 20.896 pessoas foram infectadas por essa doença de fácil prevenção, informou a Organização das Nações Unidas nesta sexta.   O Escritório da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha, na sigla em inglês) disse em comunicado que os novos dados referiam-se até o dia 18 de dezembro. Na véspera, o órgão havia informado 1.111 mortes e 20.581 casos da doença. A agência da ONU aponta que a falta de água potável e sistema de esgoto continua a ser um problema, bem como o decadente serviço de saúde e uma greve de enfermeiros.   Os funcionários do setor de saúde têm sido "incapazes de conseguir os salários do banco, devido à falta de cédulas de dinheiro, tornando muito oneroso e caro viajar a trabalho", apontou a OMS na quinta. A alta inflação forçou o Zimbábue a colocar em circulação moedas de valor mais alto, levando à formação de longas filas fora dos bancos. Ainda segundo a agência, o cólera atingiu mais a capital, Harare. A OMS advertiu sobre a falta de suprimentos médicos para tratar a doença.   Outra tática para se manter no poder é tirar uma carta da manga sempre que está ameaçado. Em 2000, ele incentivou a invasão de fazendas de agricultores brancos. As terras foram distribuídas entre aliados, a maioria da elite de Harare que não sabe o que fazer com as propriedades. A agricultura entrou em colapso, mas a culpa foi outra vez colocada nas costas do imperialismo europeu. O problema de Mugabe é que as terras acabaram e não há mais brancos para expulsar. Um quarto da população já deixou o país. "Ele está ficando sem opções", disse ao Estado Judy Smith-Höhn, do Instituto de Estudos de Segurança de Pretória, na África do Sul. Para ela, o regime de Mugabe desafia a lógica. "É incrível como ele se sustenta mesmo sem oferecer os serviços mais básicos."   (Com Cristiano Dias, de O Estado de S. Paulo)

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