Chester Higgins, Jr./The New York Times
Chester Higgins, Jr./The New York Times

Bob Marley tocou na festa de independência do Zimbábue após Mugabe libertar o país

Cantor pagou do próprio bolso o voo e o traslado do equipamento necessário de Londres para Harare

​Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2019 | 09h40

O ex-presidente do Zimbábue Robert Mugabe, que liderou o país africano com mão de ferro entre 1980 e 2017, morreu nesta sexta-feira, 6, aos 95 anos. Um dos casos mais famosos envolvendo o ditador do Zimbábue ocorreu em 1980, logo após a independência do país. 

Robert Mugabe ainda era um herói quando seu homônimo, Robert Nesta Marley, o Bob Marley, um jamaicano de longos dreadlocks e o maior nome da história do reggae, subiu ao palco do Estádio Rufaro para tocar na festa de independência do Zimbábue, em abril de 1980.

Marley pagou do próprio bolso o voo e o traslado do equipamento necessário de Londres para Harare para a apresentação. A ideia de trazer Bob Marley para se apresentar no Zimbábue se deve a dois empresários da cena musical de Harare, Job Kadengo e Gordon Muchanyuka.

Convencidos de que o rei do reggae era o melhor nome possível para se apresentar na festa de independência que celebraria o fim do governo de minoria branca na antiga Rodésia após anos de guerra civil, os dois voaram para Kingston, na Jamaica a poucas semanas do evento. O desafio era convencer Marley a se apresentar na África.

Chris Blackwelll, empresário do cantor no Wailers, era contra.  No entanto, o jamaicano havia acabado de lançar o álbum Survival, que aprofundou suas críticas ao sistema capitalista e ao racismo institucionalizado.

No LP, ele gravou uma canção chamada Zimbabwe, em apoio aos grupos guerrilheiros que lutavam contra o governo branco da Rodésia. Mas Marley acompanhava de perto a guerra de libertação conduzida por guerrilheiros no Zimbábue e decidiu ir.

Sua música inspirou o Zimbábue. Guerrilheiros da Frente Patriótica ouviam cassetes de seus discos. O reggae era ao mesmo tempo uma fuga e uma inspiração no front.

Marley chegou ao Aeroporto de Harare em 16 de abril de 1980, protegido por um forte contingente policial, com 21 toneladas de equipamento e um sistema de som de 35 mil watts trazidos em um boeing 707.

A chegada dos Wailers a Harare foi um evento. Desde a implementação de sanções contra o país na década de 70, o Zimbábue estava praticamente excluído do cenário internacional.

Marley e sua equipe passaram a noite no Hotel Skyline, e saíram com guerrilheiros da Frente Patriótica para conhecer a cidade. No dia seguinte, ele fumou maconha com produtores da erva em Mutoko, cidade a 143 quilômetros da capital.

À tarde, ele foi para o estádio. Pela primeira vez, a bandeira verde, dourada e preta do Zimbábue foi hasteada. O local estava lotado. A polícia se precipitou e lançou gás contra a multidão.

O gás chegou ao palco e a banda teve de sair, para voltar momentos depois. “Agora eu sei o que é um verdadeiro revolucionário”, disse Marley à sua mulher Rita, no backstage.

Rei do reggae, Robert Nesta Marley morreria um ano depois, vítima de câncer. Herói da independência, Robert Gabriel Mugabe morreu aos 95, depois de governar o Zimbábue como um déspota cruel por 37 anos.

 

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