Mugabe recusa criação de governo de coalizão com opositores

Porta-voz diz que solução do Quênia não se amplia ao Zimbábue, e que país tem seu modo de resolver a crise

Agências internacionais,

01 de julho de 2008 | 08h48

O porta-voz do presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, rejeitou nesta terça-feira, 1, a proposta de um governo de unidade nacional como o que solucionou a crise política no Quênia. A idéia foi oferecida pela África do Sul, um dos principais aliados do governo de Mugabe e conta com o apoio total dos demais líderes africanos que participam da cúpula União Africana no balneário egípcio de Sharm el-Sheik. A crise zimbabuana é o assunto principal do evento.   Veja também: EUA ameaçam agir de modo unilateral contra o Zimbábue Tsvangirai: de líder sindical a inimigo do regime Mugabe: uma história de 3 décadas no poder   O governo sul-africano propôs a Mugabe e ao líder da oposição, Morgan Tsvangirai, mediar as negociações para que ambos negociem a formação de um governo de coalizão e iniciem um processo de transição política, porém o regime de Mugabe rechaçou a proposta. "O Quênia é o Quênia. O Zimbábue é o Zimbábue. Nós temos nossa própria história de desenvolver um diálogo e resolver nossos problemas políticos no modo zimbabuano", disse George Charamba aos veículos de imprensa presentes na cúpula. "A forma de resolver o problema é uma forma definida pelo povo do Zimbábue, livre de qualquer interferência externa. E é isso exatamente o que resolverá a questão", afirmou.   Charamba criticou os países ocidentais que conclamaram Mugabe a renunciar. "Eles podem ir para o diabo que os carreguem. Ele podem ir para o diabo que os carreguem um milhão de vezes. Eles não podem falar nada sobre a política zimbabuana, nada de nada", disse o porta-voz, acrescentando que Mugabe havia conquistado o mandato dos eleitores zimbabuanos. "Não se passaram nem mesmo cinco dias, nem mesmo uma semana desde que o povo zimbabuano se manifestou novamente, e vocês já estão querendo que ele se afaste?", perguntou.   O partido de Tsvangirai, o Movimento para a Mudança Democrática, negou as informações de que o presidente da África do Sul, Thabo Mbeki, está perto de conseguir um acordo entre Mugabe e a oposição por um governo de unidade. Tsvangirai deixou nesta terça-feira a embaixada da Holanda na capital do país, Harare, onde estava refugiado desde a semana passada, segundo declararam nesta terça-feira diplomatas holandeses. Segundo a BBC, o rival de Mugabe teria considerado a situação calma o suficiente para retornar a sua casa.   Após desistir de concorrer com o líder do Zimbábue, Robert Mugabe, no segundo turno das eleições presidenciais da última sexta-feira, Tsvangirai buscou refúgio na embaixada holandesa dizendo temer por sua segurança. Ele havia sido detido várias vezes durante a campanha eleitoral. Seu partido afirma que Tsvangirai teria conquistado votos suficientes para garantir a vitória no primeiro turno das eleições, ocorrido em março.   Como candidato único, Mugabe foi declarado o vencedor do pleito e assumiu um novo mandato no último domingo, gerando uma onda de críticas internacionais questionando a lisura do processo eleitoral. A comissão eleitoral do país disse que Mugabe recebeu 85,5% dos votos válidos, mas observadores da própria União Africana disseram que o pleito não atingiu os padrões da organização para eleições democráticas.   O primeiro-ministro do Quênia, Raila Odinga, pediu na segunda-feira para que a União Africana suspenda o presidente do Zimbábue do bloco e defendeu que sejam enviadas tropas ao país para garantir que sejam realizadas eleições "livres e justas". O porta-voz de Mugabe acusou Odinga de ter as mãos sujas de sangue por conta da crise que atingiu o Quênia após as eleições e deixou mais de 1.500 mortos.   "Odinga tem as mãos sujas de sangue, sangue da ferida africana. E esse sangue não será limpo com qualquer tipo de abuso no Zimbábue". Tsvangirai afirma que mais de 90 de seus partidários foram mortos desde o primeiro turno, em 29 de março. Ele pediu na segunda que os líderes da UA não reconheçam o resultado do segundo turno.   Grande parte dos líderes africanos tem laços estreitos com Mugabe e o respeita por sua atuação na guerra da independência do Zimbábue. Por isso, eles têm dificuldade em condenar as ações do presidente. Mugabe, que tem 84 anos de idade e está no poder desde a independência do Zimbábue, em 1980, é tido como um dos maiores nomes do continente na luta contra o colonialismo europeu.   Matéria atualizada às 9h25.

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