REUTERS/Philimon Bulawayo
REUTERS/Philimon Bulawayo

Mugabe resiste à pressão de militares para deixar governo do Zimbábue

Segundo fonte de inteligência, ditador que comandava nação desde 1980 resiste à mediação de um padre católico que visa lhe conceder saída honrosa na esteira de golpe militar; líder opositor Morgan Tsvangirai voltou ao país, alimentando especulações

O Estado de S.Paulo

16 Novembro 2017 | 09h51

HARARE - O presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, insiste que é o único governante legítimo do país e está resistindo à mediação de um padre católico que visa conceder ao ex-guerrilheiro de 93 anos uma saída honrosa na esteira de um golpe militar, disse uma fonte de inteligência nesta quinta-feira, 16.

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O padre Fidelis Mukonori está atuando como intermediário entre Mugabe e os generais que tomaram o poder na quarta-feira por meio de uma operação direcionada a “criminosos” ligados ao presidente, disse uma fonte política de alto escalão à agência Reuters.

A fonte não pôde dar detalhes das conversas, que parecem buscar uma transição suave e pacífica após a saída de Mugabe, que comanda o Zimbábue desde sua independência em 1980.

Mugabe, ainda visto por muitos africanos como um herói da libertação, é repudiado no Ocidente, que o vê como um déspota cujas desastrosas medidas econômicas e disposição para recorrer à violência para se manter no poder destruíram um dos Estados mais promissores da África.

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Relatos da inteligência zimbabuana vistos pela Reuters levam a crer que o ex-diretor de segurança Emmerson Mnangagwa, demitido da Vice-Presidência no mês passado, está elaborando uma visão pós-Mugabe para o país com os militares e a oposição há mais de um ano.

Alimentando a especulação de que tal plano pode estar sendo acionado, o líder opositor Morgan Tsvangirai, que passa por tratamento de câncer no Reino Unido e na África do Sul, voltou à capital Harare na noite da quarta-feira, informou seu porta-voz.

A África do Sul disse que Mugabe relatou ao presidente sul-africano, Jacob Zuma, por telefone, na quarta-feira, que está confinado em sua casa, mas que de resto está bem e os militares o estão mantendo e à sua família em segurança, incluindo sua mulher, Grace.

Apesar da admiração ainda existente por Mugabe, o povo é pouco afeito a Grace, de 52 anos, ex-datilógrafa do governo que iniciou um caso com Mugabe no início dos anos 1990 enquanto sua primeira esposa, Sally, sucumbia a uma doença renal.

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Apelidada de “DisGrace” ou “Gucci Grace” devido a seu suposto amor por marcas famosas, ela teve uma ascensão meteórica nas fileiras do partido governista do marido, a União Nacional Africana do Zimbábue - Frente Patriótica (ZANU-PF), nos últimos dois anos, o que culminou com a demissão de Mnangagwa uma semana atrás - manobra que se acredita ter sido realizada para abrir caminho para Grace suceder Mugabe.

Normalidade

Harare, capital do Zimbábue, amanheceu nesta quinta-feira em aparente calma, apesar do clima de tensão vivido no país após a intervenção militar contra o governo de Mugabe.

O tráfego recuperou seus níveis habituais, na zona diplomática de Mount Pleasant desapareceram os controles que foram levantados na véspera e as escolas retomaram suas aulas.

O diretor da Comissão de Administração Pública do Zimbábue, Mariyawanda Nzuwah, pediu a todos os funcionários que fossem trabalhar, segundo o jornal estatal "The Herald".

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"Espera-se que todos os funcionários apareçam no local de trabalho todos os dias a tempo de servir o povo do Zimbábue", manifestou Nzuwah, garantindo que todos os funcionários públicos - incluindo membros do Exército - receberiam seu salário a tempo.

Muitas pessoas não trabalharam na quarta-feira, depois que os militares bloquearam os acessos aos principais edifícios governamentais da cidade, assim como o Parlamento.

Enquanto Mugabe segue sob prisão domiciliar, o outrora fiel a ele - e ao seu partido - "The Herald", publica nesta quinta um editorial onde comenta que, "se a intervenção militar pode fazer com que os cargos do partido voltem suas atenções para aqueles que votaram neles, a ação já terá feito muito" pela ZANU-PF. / REUTERS e EFE

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