Mugabe: uma história de três décadas no poder

Apesar de críticas ao Reino Unido, presidente coleciona títulos acadêmicos e prêmios internacionais

efe

28 de junho de 2008 | 13h18

 Robert Mugabe conserva um título honorário da coroa britânica, o de Cavaleiro Comandante da Ordem de Bath, mas se transformou no líder africano que mais critica o Reino Unido. Segundo ele, o governo britânico quer derrubá-lo. Mugabe, de 84 anos, comanda o Zimbábue desde 1980, ano em que o país nasceu das cinzas do governo minoritário de Ian Smith, não reconhecido internacionalmente, e se tornou uma república independente. Smith era primeiro-ministro da colônia britânica da Rodésia do Sul.  Veja também:Brasil aceita convite para ser observador nas eleiçõesMugabe é acusado de intimidar rivaisONG acusa governo do Zimbábue de violar processo eleitoral Nascido em 21 de fevereiro de 1924 na cidade de Matibiri, nordeste do país, Mugabe, católico, foi educado por professores maristas e jesuítas até se tornar professor, no primeiro grau de uma formação profissional que completou enquanto estava preso. É considerado um dos heróis mais respeitados na luta pela independência entre países africanos. Apesar de seu discurso agressivo e da repressão política que exerce em seu país, ainda é aplaudido quando reúne-se com seus pares do continente. "Mugabe é nosso irmão africano", afirmou em dezembro último o presidente do Senegal, Abdoulaye Wade. O governante do Zimbábue começou sua luta política aos 36 anos, quando se juntou a um partido que seria proibido pelo Governo de Ian Smith. Passou por outros grupos políticos na nascente luta independentista zimbabuana, que o levou à prisão em 1964. Ficou preso dez anos, e depois se viu forçado a viver no exílio, o que lhe impediu de participar ativamente, dentro de seu país, da luta pela independência, promovida finalmente por outros líderes que, no entanto, perderiam força após o nascimento da república. Mugabe esteve entre os signatários do Acordo de Lancaster House, firmado pelo governo de Smith e os líderes da guerrilha independentista, e sancionados também pela antiga colônia, o Reino Unido. Nas eleições posteriores, o partido de Mugabe, a União Nacional Africana do Zimbábue (Zanu, em inglês) conseguiu maioria no Parlamento, e Mugabe se tornou primeiro-ministro da nascente república. Esse posto foi abolido em 1987, e Mugabe se tornou presidente, cargo que tinha acabado de ser criado. Mugabe é presidente até hoje, após sucessivas eleições e, segundo disse em 2005, só deve deixar o poder quando chegar aos 100 anos. Carreira acadêmica O governante conta com vários títulos acadêmicos em nível superior, embora tenha formação inicial de professor. Possui estudos de pós-graduação em Economia, um setor que atualmente é sua maior fonte de preocupação, porque o Zimbábue atravessa a pior crise de sua história. Apesar de sua idade avançada, Mugabe continua sendo um homem que demonstra grande energia. De retórica dura, não costuma ter papas na língua para qualificar seus adversários políticos, classificados pelo presidente como "traidores" ou "marionetes do Ocidente". Desde a expropriação de milhares de fazendas pertencentes a proprietários brancos em uma reforma agrária de caóticos resultados, em 2000, Mugabe está convencido de que o Reino Unido e outros territórios querem derrubá-lo. Crise econômica Mugabe atribui a crise econômica atual, com inflação superior a 150.000% - segundo líderes sindicais - e uma taxa de desemprego de 80%, às sanções impostas pelos Governos ocidentais. Essas sanções, no entanto, parecem ter apenas como alvo o próprio presidente. Impedem viagens internacionais de pessoas ligadas a seu regime, congelam suas contas bancárias e proíbem a comercialização de materiais destinados ao Exército e à Polícia zimbabuanos. Graças à cooperação de organizações internacionais, centenas de milhares de pessoas podem comer todos os dias no Zimbábue, por causa de baixa produção agrícola em um país que até pouco tempo era considerado "o celeiro da África". Robert Mugabe recebeu o Prêmio Internacional de Direitos Humanos da Universidade Howard em Washington (1981) e um prêmio da ONU por sua luta contra a fome na África (1988). Em 1960, se casou com a ganesa Sally Mugabe, que faleceu de câncer em 1992. Antes de ficar viúvo, manteve uma relação extraconjugal com sua secretária Grace, 40 anos mais nova e com a qual se casaria em 1996. Os dois primeiros filhos de Robert Mugabe e Grace foram concebidos fora do casamento. O terceiro, Chatunga, nasceu quando o governante tinha 73 anos.

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