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Muhammad Ali

Muhammad Ali nasceu Cassius Marcellus Clay em uma família cristã de Louisville, em Kentucky - o pai era pintor de letreiros e frequentava a Igreja Metodista, mas aceitou que a mulher, empregada doméstica, batizasse os filhos na Igreja Batista. A conversão ao Islã (ou reversão, como usado por muçulmanos) não foi um ato de fé, mas político; parte de um movimento ao qual uma geração de negros americanos aderiu. A trajetória de Ali, como a de Malcom X e muitos ativistas do movimento por direitos civis nos anos 60 nos EUA, nos dá pistas do que pode levar hoje milhares de jovens a abraçar o Islã como religião. 

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

11 Junho 2016 | 07h25

Cassius cresceu em um tempo em que os negros não tinham permissão para usar o mesmo banheiro dos brancos, sentar-se no mesmo banco no ônibus e frequentar a mesma escola - Ali tinha 12 anos quando a Suprema Corte americana aprovou, em 1954, a lei que acabaria com a segregação racial na rede pública de ensino, decisão ignorada por instituições de ensino privadas, principalmente no sul do país.

No início, as mudanças legais que tentavam corrigir a segregação provocaram, em lugar da integração entre brancos e negros, a explosão da violência e do racismo. O movimento por Direitos Civis, que começou no Alabama, em 1965, foi brutalmente combatido pela polícia e acompanhado do ressurgimento de grupos supremacistas brancos. Integrantes do Ku Klux Klan, com origem um século antes, reacenderam suas cruzes e, bíblias em punho, promoveram uma nova onda de ataques que aterrorizou comunidades negras nos EUA.

O ódio racial continuava relegando os negros aos porões da sociedade. Para muitos, era impossível desassociá-lo da religião. Cem anos antes, os escravocratas impuseram o cristianismo nas senzalas, proibindo crenças nativas africanas e o Islã (ao menos 10% dos escravos nos EUA vinham do oeste africano muçulmano).

Os anos 1960 viram os primeiros negros chegarem ao ensino superior (James Meredith, na Universidade do Mississipi) e à Suprema Corte (Thurgood Marshalle, primeiro juiz negro dos EUA, que assumiu o posto em 1967) e, ao mesmo tempo, os mais brutais ataques contra negros, como o assassinato de três jovens ativistas, pela Ku Klux Klan no Mississippi (crime que inspirou o filme Mississippi em Chamas), em junho de 1964.

Cassius Clay foi influenciado por Malcolm X, então o mais proeminente integrante de um grupo radical chamado Nação do Islã, que defendia a supremacia negra. No dia em que Clay disputaria o cinturão dos pesos pesados contra o americano Sonny Liston, Malcolm X, para quem a luta representava “a Cruz e o Crescente no ringue pela primeira vez”, visitou-o no vestiário. Voltados para Meca, eles oraram juntos.

Aquele foi o primeiro título mundial de Clay e sua última luta com o “nome de escravo”. No dia seguinte, ele anunciou publicamente a conversão ao Islã e, pouco depois, assumiu-se como Muhammad Ali. Ele justificou sua decisão e a aliança com a Nação do Islã dizendo querer a paz que não encontrava na integração entre negros e brancos nos EUA.

Sua conversão foi vista como ameaça aos valores cristãos. A imprensa americana se recusava a tratá-lo pelo nome muçulmano. Jimmy Cannon, comentarista esportivo da época, acusou-o de transformar o boxe em um “instrumento de ódio”. Floyd Patterson, lutador e católico fervoroso, chamou-o de antiamericano.

Em outubro de 1965, Patterson desafiou Ali a lutar, em artigo publicado na Sports Illustrated, em que prometia “salvar o esporte” da “escória dos negros muçulmanos”. Seis semanas depois, em Las Vegas, ele perdeu a luta para Ali, que movimentava-se no ringue gritando: “Vem, branco americano!”

Para Richard Reddie, autor do livro Black Muslims in Britain, o Islã passou a servir de “inspiração e força” para negros que não se sentiam parte da sociedade “materialista e corrompida”. Converter-se passou a ser um ato de resistência ao domínio econômico, social e cultural dos brancos.

O conflito entre Islã e cristianismo, moldado pelo racismo, continua latente. O Islã é uma religião pacífica. Mas o ódio e a segregação de que muitos jovens nas periferias hoje são vítimas servem de combustível para extremistas. Eles exploram a fragilidade econômica, social, emocional para cooptar os que, como os negros americanos dos anos 1960 (e até hoje), não se sentem integrados à sociedade, sob o discurso de que a fonte da opressão de pobres, imigrantes, negros e muçulmanos é a mesma: o Ocidente e seu estilo de vida corrompido, a exemplo do movimento que levou muitos negros a se converterem nos 1960.

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