Muito alarde para nenhuma mudança de fato

O discurso de Bashar Assad parecia o de um presidente recém-eleito em votação democrática em outras partes do mundo. Seu nome era entoado pelos deputados, de pé, no Parlamento inspirado, apenas arquitetonicamente, no modelo britânico. Simpatizantes dele, carregando bandeiras e fotos, acompanhavam do lado de fora em um telão. E o líder sírio, alto e jovial, sorria para todos. Nem parecia que ele enfrenta os maiores protestos contra um regime que está no poder há quase quatro décadas, primeiro com o seu pai e nos últimos 11 anos sob o seu comando.

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

31 Março 2011 | 00h00

Quando tentava falar, Assad era interrompido por deputados que buscavam demonstrar todo o seu apoio em uma cena que parecia ter saído das popularescas novelas produzidas em Damasco. Ninguém o criticava. Mulheres também se levantaram para falar. O regime sírio sempre buscou mostrar que, diferentemente de outros países árabes, o sexo feminino estaria bem representado na política, sem opressão. Uma das parlamentares recitou uma poesia. Como a mulher de Assad, Asma, não cobria a cabeça com o véu.

No dia anterior, todos aguardavam o momento em que o líder sírio anunciaria o fim do estado de emergência, vigente desde antes de seu nascimento. Mas Assad seguia falando de conspirações, Israel e de reformas que teriam ocorrido desde a sua chegada ao poder, em 2000. As redes de TV internacionais transmitiam ao vivo. Mas a falta de notícia era tanta que a CNN interrompeu a transmissão ao vivo para passar para comentários de analistas. Já a Al-Jazira prosseguiu com a transmissão. No fim, os apresentadores estavam perplexos. Assad não havia anunciado mudanças, se despedindo como se fosse um herói.

É CORRESPONDENTE EM NOVA YORK

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