Divulgação/Jews of Egypt
Divulgação/Jews of Egypt

'Muitos estão tentando fazer mudanças no Egito de dentro para fora'

Cineasta egípcio está em São Paulo para divulgar o documentário 'Jews of Egypt' (Judeus do Egito), que apesar de ter sido autorizado pelas autoridades do país, foi banido por um período depois que já estava nos cinemas

Entrevista com

Amir Ramses

Renata Tranches , O Estado de S.Paulo

20 Outubro 2017 | 06h00

O jovem cineasta Amir Ramses sabia que estava lidando com uma questão delicada no Egito quando começou a trabalhar no seu documentário Jews of Egypt em 2009, ao falar sobre a expulsão de judeus do país nos anos 50. No episódio que ficou conhecido como Êxodo Esquecido, em 1956, o governo egípcio expulsou quase 25 mil judeus egípcios e confiscou seus bens, sob a acusação de deslealdade, ao fim do processo de descolonização e do nascimento do "nacionalismo egípcio". Mais de mil judeus foram enviados para prisões e campos de detenção. Quando a guerra com Israel explodiu, em 1967, as casas e propriedades dos judeus foram confiscadas. Acreditando que o cineasta não concluiria o trabalho ou o documentário não atrairia tanta atenção, o Departamento de Censura decidiu liberá-lo.

Depois de pronto, a grande procura pelo filme fez as autoridades retrocederem e Jews of Egypt foi banido por um período em 2013, para logo voltar às salas de cinema. A decisão, segundo Ramses, não teve a ver com um ou outro pensamento político, já que entre a primeira aprovação para filmar até a última decisão que o liberou, o país passou por uma revolução (Primavera Árabe) que derrubou um regime de 30 anos - Hosni Mubarak -, elegeu um presidente islâmico - Mohamed Morsi -, e assistiu aos militares tomando o poder, para ser hoje governado pelo ex-general Abdel Fatah al-Sissi. Em entrevista ao Estado, ele diz acreditar que o país, hoje, vive um bom momento, graças às pequenas atitudes de funcionários que tentam fazer mudanças no país. "A viabilidade de um filme sempre dependerá de quanto o censor está disposto a lutar a causa por você", disse ele, que está em São Paulo para a exibição do documentário no domingo, 22, às 19h (Teatro Arthur Rubinstein de A Hebraica/ Rua Hungria 1000/Entrada franca). Veja trechos da entrevista. 

Por que seu documentário Jews of Egypt foi banido? 

No começo, acho que acreditaram que como seria um documentário, ninguém iria se interessar ou assistir, então eles simplesmente me autorizaram a fazer as filmagens. Mas depois, quando ele começou a ser exibido, viram que ele não seria limitado de maneira nenhuma, houve muito interesse, todos queriam assistir ao documentário. Esse foi o segundo documentário sobre a história dos judeus egípcios a ser colocado nas salas de cinema no país, e começou a atrair muito mais atenção do público, da mídia, do que se imaginava inicialmente. Ele não era tão discreto como se pensava que seria, especialmente quando os distribuidores quiseram colocá-lo nas grandes salas de cinema comerciais. 

O que aconteceu a partir de então? 

Foi aí que que o governo entrou em pânico e quis retirar a permissão que já tinha nos dado para filmá-lo. 

Que ano isso aconteceu? 

Isso era 2013. Nós finalizamos o filme em 2012 e teve uma exibição limitada em um evento no Egito em outubro daquele ano. Mas aí ele ficou grande, muito maior do que todos esperavam. Os distribuidores o queriam, e isso é algo raro para um documentário no Egito. Então os censores começaram a ter um tipo de paranoia sobre o tema, que é a expulsão dos judeus egípcios e o fato de seus bens terem sido confiscados. Acho que surgiu o medo de que essas pessoas voltem para reaver suas coisas, acredito que por isso o documentário foi banido. 

Mas eles já tinham autorizado o tema para ser filmado? 

Eu já tinha a permissão. Esse não foi o meu primeiro trabalho, já fiz muitas coisas antes. Eles acharam que se censurassem o documentário, isso atrairia muita mais a atenção da mídia, se falaria muito sobre isso, e deixaram acontecer as filmagens, mas o impacto foi muito maior do que o esperado. Então, eles começaram a bani-lo, mas já era muito tarde, ele já tinha começado a ser exibido. 

Essa foi uma decisão do presidente Morsi, da Irmandade Muçulmana? 

Sim, estamos falando sobre o governo Morsi, mas se você realmente acreditar que alguma mudança ocorreu na troca de governo (queda de Hosni Mubarak e ascesão do presidente da Irmandade Muçulmana). No entanto, a atenção ao documentário já vinha ocorrendo mesmo antes, porque o primeiro script do filme foi apresentado em 2009 para os censores. No início, eles estavam bem céticos, foram seis meses de discussão e, no fim, disseram: 'Ok, vamos dar luz verde para filmar o documentário'. Acho que eles esperavam que eu nunca o terminasse. E isso foi três anos antes da revolução (Primavera Árabe). A questão dos judeus egípcios sempre foi um tipo de assunto que chama atenção no Egito. 

Então a Primavera Árabe não foi um fato determinante para a censura? 

Só para ser claro, não acho que qualquer coisa tenha sido diferente com a Primavera Árabe nesse setor. O escritório de censura sempre foi o mesmo. Acho que alguns bons passos foram tomados desde então, mas não graças à Primavera Árabe e sim a muitas pessoas que estão tentando fazer mudanças do país de dentro para fora. Eles não estão totalmente no controle das tomadas de decisão, mas o que cabe a elas, na parte em que podem decidir, estão tentando fazer a coisa certa. Claro que isso sempre pode mudar. 

Mas foi uma decisão política? 

Claro, sempre é uma decisão política. Mas diferentes políticos tentaram bani-lo, e no fim ele acabou sendo exibido.  

Onde ele está sendo exibido hoje? 

Comercialmente, está no Egito e nos EUA, mas em festivais, o documentário tem sido exibido em quase todos os lugares, Líbano, Jordânia, Marrocos, toda a Europa, Ásia, EUA, entre outros. 

A censura continua muito grande no país? 

Tópicos controversos sempre são seguidos de perto pelas autoridades egípcias e acho que isso não vai mudar tão cedo. Mas nesse momento eu sinto que o escritório de censura está tentando fazer algumas mudanças, ainda que suas mãos estejam muito atadas ao regime. O que estou tentando dizer é que a viabilidade de um filme sempre dependerá de quanto o censor está disposto a lutar a causa por você. As pessoas estão tentando fazer filmes com tópicos controversos. Tudo depende de o quanto o censor vai querer asumir a causa com você. Se ele vai ficar do seu lado ou do governo.  

Como tem sido para você fazer filmes no Egito? 

Eu fiz dois filmes depois de Jews from Egypt e não tive nenhum problema para que eles fossem aprovados pela censura e exibido nos cinemas. Muitos filmes controversos já foram exibidos no país. Arrisco a dizer que estamos tendo um momento tranquilo, graças ao fato de termos agora um boa equipe tomando conta da censura. A luta ainda é a mesma, mas pelo menos temos uma parte importante do nosso lado, por enquanto. Claro que isso pode mudar a qualquer momento. 

O governo é muito vigilante com você? 

Eles sempre mantêm um olho não só no meu, mas no trabalho de todo mundo.

Veja o trailer do documentário:

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