Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times
Maria Magdalena Arrellaga/The New York Times

'Muitos precisaram vender carros e até casas para manter parentes na UTI; o povo cansou'

Analista político explica que a situação da Saúde piora no Paraguai com o avanço da pandemia e falta de vacinas e remédios levou ao esgotamento da população com o atual governo

Entrevista com

Pablo Valdez, analista político

Fernanda Simas, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2021 | 16h19

As manifestações da sexta-feira 5 em Assunção soaram para a classe política como um ato contra a corrupção e pedindo mudanças na gestão da pandemia do novo coronavírus e do quadro que atualmente está no poder. Menos de 24 horas após os protestos, que terminaram com um morto e ao menos 18 feridos, o presidente do Paraguai Mario Abdo Benítez pediu que todos seus ministros deixassem os cargos à disposição e o Ministério de Relações Exteriores anunciou a chegada de 20 mil doses de Coronavac doadas pelo Chile

A crise política que se desenha agora resulta da crise sanitária decorrente do aumento do número de casos de covid-19. Até hoje, apenas funcionários da Saúde receberam as vacinas que foram compradas da Rússia e remédios que ajudam a tratar dos internados em UTIs começaram a faltar no sistema público. "As pessoas estão cansadas. Aqueles que precisam ficar na UTI em razão da covid ou mesmo por outras doenças encontram um sistema quase colapsado nos últimos dois meses e falta de medicamentos...Isso levou aos protestos", explica o jornalista e analista político Pablo Valdez. Para ele, os próximos passos de Benítez diante da crise vão indicar se ele ganha apoio político ou fica perto de um impeachment. 

O que levou aos protestos de sexta?

O cansaço cidadão. As pessoas estão cansadas. Aqueles que precisam ficar na UTI em razão da covid ou mesmo por outras doenças encontram um sistema quase colapsado nos últimos dois meses e falta de medicamentos. Os parentes dos pacientes precisam comprar os remédios em farmácias ou mesmo no mercado negro. São remédios caros que mantêm a respiração artificial dos que lutam para não morrer. Estamos em um momento de alta no número de casos por conta da propagação do coronavírus e muitas pessoas precisaram vender carros, até casas, para manter um parente na UTI, o povo cansou. Isso levou aos protestos de sexta, convocados pelas redes sociais. As manifestações exigiam o fim da corrupção, eficiência na gestão da pandemia e menos burocracia na gestão dos recursos. A manifestação não tinha líderes políticos. Em meio a essas manifestações, grupos começaram a vandalizar, jogando pedras e objetos contra os policiais, que reagiram com balas de borracha e gás lacrimogêneo.  

Por que a população está tão insatisfeita com a gestão da pandemia?

Além do que já disse é preciso lembrar que o Paraguai foi muito elogiado pela gestão da pandemia desde o começo. A propagação do vírus não foi tão grande e até hoje tínhamos um cenário em que o sistema de saúde aguentou. Mas somos o único país que quase não recebeu vacinas, nem pelo sistema Covax e nem por compra direta. O governo comprou 1 milhão de doses da Sputnik, mas apenas 4 mil chegaram e a Rússia não diz quando enviará as próximas. Pelo sistema Covax, o Paraguai pagou adiantado e ainda não tem vacinas. Isso tudo cansou a população, que se voltou contra o governo. O governo, por sua vez, não se comunica direito e não explicou o que aconteceu. Alguns problemas da chegada de remédios e vacinas não são culpa do nosso governo, dependem de questões geopolíticas, mas as pessoas culpam o governo integralmente.

Como isso pode impactar o presidente Benítez?

Com seu impeachment. O presidente governa em nome do partido majoritário. Na verdade, seu partido, Colorado, tem a quantidade de votos no Congresso suficiente para evitar o impeachment, mas o que ocorre é que o partido está dividido em dois movimentos. O que apoia Benítez é minoria. A maioria apoia o ex-presidente Horacio Cartes. E esse grupo é muito crítico ao atual presidente e o sustenta na presidência para que o partido Colorado não deixe o poder. Nesse momento, os partidos de oposição pedem um julgamento político, parte da população pede a renúncia de Benítez e outra parte da população pede mudanças radicais. O movimento de Cartes diz 'ou presidente adota mudanças radicais no gabinete e no discurso ou a situação ficará insustentável e vamos apoiar o impeachment'. Agora é preciso ver como a população vai encarar as próximas decisões de Benítez.

Qual é o apoio político de Benítez hoje?

O presidente pediu a todos os ministros que renunciassem para ter mãos livres e fazer mudanças no gabinete, mas ainda há gente descontente. Então é preciso esperar para ver qual apoio ele terá após as mudanças.

Como está a oposição diante disso?

A oposição é formada pelos liberais, partido que mais tem deputados no Congresso depois dos Colorados. Em seguida vem a Frente Guassú, do ex-presidente Fernando Lugo, de esquerda. E por fim, grupos menores de esquerda e centro-direita. Todos se uniram para pedir o julgamento político de Benítez, mas a divisão interna no partido Liberal é grande e alarmante. Se eles chegam ao poder não há garantia de estabilidade no governo, por exemplo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.