Muitos prédios para poucas pessoas

Autoridades esperavam tornar Ordos uma versão de Dubai na China, mas críticos denunciam bolha imobiliária

David Barboza / The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2010 | 00h00

Sob vários aspectos, esta cidade do Norte da China, rica em recursos naturais, é um sucesso fabuloso. Com suas enormes reservas de carvão e gás natural, ela tem uma economia em expansão e um mercado imobiliário tão vibrante que praticamente cada casa à venda encontra imediatamente um comprador. Apenas uma coisa falta no centro desta cidade: gente.

Ordos tem 1,5 milhão de habitantes. Mas a versão futurista de Ordos - construída a partir do zero em uma área desocupada a cerca de 25 quilômetros da cidade antiga - está quase deserta. Amplas alamedas sem trânsito algum no novo bairro, chamado Novo Kangbashi; edifícios de escritórios vazios; poucos pedestres. O mato começa a brotar nos luxuosos condomínios residenciais onde ninguém reside ainda.

"Este lugar é muito solitário", diz Li Li, a gerente de marketing de um elegante restaurante do Lido Hotel de Kangbashi, na maior parte vazio. "Em geral, os que vêm ao nosso restaurante são funcionários do governo e seus convidados. Não há pessoas morando nas imediações".

As autoridades, estimuladas por incorporadoras agressivas, esperavam transformar Ordos em uma versão chinesa de Dubai - tornando enormes espaços da árida estepe mongol em uma metrópole florescente. Chegaram a investir mais de US$ 1 bilhão em seu projeto visionário. Mas quatro anos depois que a prefeitura foi transplantada para Kangbashi, e com dezenas de milhares de casas e dezenas de edifícios de escritórios concluídos, a área de cerca de 31quilômetros quadrados foi chamada no jornal oficial China Daily de "cidade fantasma", um monumento à extravagância e ao otimismo equivocado.

Enquanto a vigorosa economia chinesa alimenta um selvagem boom da construção em todo o país, os críticos mencionam Kangbashi como a prova de uma bolha imobiliária especulativa, alertando para a sua próxima explosão - que enviará ondas de choque ao sistema bancário de uma nação que nestes últimos anos tem sido o motor principal do crescimento global.

Recentemente, a China surpreendeu analistas elevando ligeiramente seu juro básico sobre os empréstimos, aparentemente para reduzir a especulação no mercado imobiliário. Mas os analistas duvidam que o pequeno aumento destes juros possa frear o impulso do incrível filão da construção que está chegando a regiões remotas como esta. Kangbashi foi projetada para 300 mil habitantes. O governo afirma que na nova área moram 28 mil pessoas.

Os analistas estimam que pode haver cerca de dez outras cidades chinesas como Ordos, com uma área urbana se expandindo pelas comunidades igualmente fantasmas ao seu redor. Na cidade de Kunming, no sul do país, por exemplo, uma área de quase 103 quilômetros quadrados chamada Chenggong provocou alarme pelas ruas também desertas, assim como os edifícios e as repartições do governo. Tianjin, na região nordeste, gastou somas enormes para criar uma área imensa com campos de golfe, termas e milhares de luxuosos palacetes que continuam vazios, cinco anos depois de sua conclusão.

Parecem loucuras de novos ricos, não fosse que o objetivo do governo chinês é transferir centenas de milhões de pessoas que vivem nas áreas rurais para grandes cidades na próxima década, na esperança de criar uma grande classe média. Um dos principais desafios dos estrategistas de Pequim é determinar se a expansão e a modernização de cidades antigas como a de Ordos é ditada por um planejamento inteligente ou pela insanidade especulativa.

Temendo a desigualdade e a agitação social, o governo esforça-se para conter a alta vertiginosa dos preços dos imóveis e deter a ameaça da inflação, mesmo que ambiciosos políticos locais continuem elaborando projetos de novas mega-cidades.

Patrick Chovanec, que ensina economia na Universidade Tsinghua, em Pequim, diz que o boom da construção é provocado por investidores delirantes - e não pela necessidade de habitação de milhões de trabalhadores migrantes.

"As pessoas agora consideram um imóvel um bom investimento - como o ouro", disse o professor Chovanec. "Elas estão formando estoques de unidades vazias. E isto acontece praticamente em cidades de todos os tamanhos".

Mas em Ordos, no interior da Mongólia, no Norte da China, escassamente povoada, ninguém quer parar para pensar. Os guindastes estão em toda parte, e as construções avançam no distrito financeiro de US$ 450 milhões na área central de Kangbashi, onde surgirão seis arranha-céus de escritórios.

Aqui, as incorporações estão tão aceleradas que, há poucos meses, as vendas de casas em Ordos chegaram a US$ 2,4 bilhões, em comparação com US$ 100 milhões em 2004. Neste período, o preço médio do metro quadrado dos imóveis comerciais e residenciais subiu 260%, para cerca de US$ 600.

"Esta é uma cidade do futuro", afirmou Li Hong, funcionário do governo, durante uma visita recente a Kangbashi. Mas o futuro ainda não chegou, apesar dos esforços de Li para convencer o visitante do contrário.

As autoridades locais talvez baseiem seu otimismo na repentina riqueza adquirida nos últimos anos por Ordos, que se ergue sobre as maiores reservas mundiais de carvão, cujo preço subiu vertiginosamente. A região tem um número cada vez maior de milionários do carvão e o maior Produto Interno Bruto per capita do país (US$ 19.679). Em 2004, quando os cofres de Ordos estavam repletos do dinheiro do carvão, as autoridades elaboraram um audacioso plano de expansão que previa a criação de Kangbashi.

Na febre da construção que se seguiu, os compradores de imóveis residenciais não se saciavam de Kangbashi e de seus bairros. Um dos compradores foi Zhang Ting, um jovem de 26 anos, um dos raros habitantes de Kangbashi, que este ano se mudou para Ordos em busca de empreendimentos.

"Sei que as pessoas dizem que é uma cidade vazia, mas não acho nenhum inconveniente em morar sozinho", afirmou. Zhang precisou tomar dinheiro emprestado para os seus investimentos. "É uma cidade nova; vamos dar tempo ao tempo". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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