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'Muitos tentaram fazer coisas que não eram boas, mas mantivemos o juízo'

No hospital de Copiapó, de onde alguns dos 33 mineiros resgatados receberiam alta ontem, o líder do grupo, Luis Urzua, revela detalhes do cativeiro e conta como levou seus subordinados a sobreviver durante os primeiros 17 dias, antes de serem localizados

Patrícia Campos Mello ENVIADA ESPECIAL COPIAPÓ, CHILE, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2010 | 00h00

Menos de 48 horas depois de serem resgatados da mina San José, 3 dos 33 mineiros receberiam alta do hospital de Copiapó ontem e voltariam para suas casas. Centenas de jornalistas se aglomeravam nas duas entradas do centro hospitalar, à espera da saída dos mineiros. Ontem, Luís Urzúa, o líder dos mineiros que foi o último a ser resgatado, contou para o presidente Sebastián Piñera alguns detalhes sobre a vida dos 33 debaixo da terra.

"Quando chegou a primeira perfuradora ao nosso refúgio, todos queriam abraçar as brocas. Eram seis da manhã, tínhamos todo um protocolo a cumprir, mas ninguém ligou, só queríamos abraçar a broca", contou Urzúa.

Os mineiros ficaram 70 dias presos a quase 700 metros de profundidade, submetidos a uma umidade de 89% e temperatura mínima de 32 graus. Muitos tinham problemas dentários, fungos na pele, e distúrbios psíquicos.

Ele também contou que mandaram vários papéis com diversas mensagens, "estamos com fome", "mande-nos comida". "Mas Deus quis que chegassem os que chegaram", completou o chefe dos mineiros.

Segundo Urzúa, depois do acidente, levou três horas até que fosse possível avaliar a situação, porque o deslizamento levantou muito pó.

Ele contou que houve tentativas de sair da mina. "E muitas pessoas tentaram fazer coisas que certamente não eram as melhores, mas por sorte conseguimos manter o juízo e graças a Deus ninguém se acidentou."

Urzúa disse que os 33 percebiam as máquinas do Plano A, B e C fazendo as perfurações, tentando chegar até o refúgio. "Tínhamos muito pouca comida e estávamos comendo a cada 48 horas, para guardar alguma coisa para mais para frente", relembrou ele.Até Mario Gómez, de 63 anos, o mais velho dos mineiros, que está com pneumonia, já estava melhorando. "Eles está respondendo muito bem ao tratamento com antibióticos." Outro dos mineiros, que tinha úlcera de córnea, também estava evoluindo bem. E três já haviam sido submetidos a cirurgias dentárias.

Prejuízo. A liberação dos mineiros do hospital estava prevista para as 16 horas, mas até às 19 horas de ontem eles ainda não haviam recebido alta. Segundo o subdiretor do hospital, Jorge Montes, a evolução de todos os mineiros é boa e todos devem estar liberados até o meio da semana que vem.

Ao sair do hospital, os mineiros poderão voltar a suas rotinas normais. Segundo Montes, podem se sentir mais confortáveis usando óculos escuros nos primeiros dias. A alimentação pode ser normal.

O médico não descartou a possibilidade de os mineiros sofrerem de estresse pós-traumático, mas disse ser pouco provável.

Ontem, em entrevista coletiva após visitar os mineiros no hospital, o presidente chileno, Sebastián Piñera, afirmou que o resgate custou entre US$ 10 milhões e US$ 20 milhões, um terço vindo de empresas privadas e o restante da estatal de cobre Codelco e do próprio governo (mais informações na pág. 24). Piñera disse esperar também que a empresa que é dona da mina, a San Esteban, arque com boa parte dos custos.

Lilianett Ramirez, mulher de Gómez, foi ao hospital ver seu marido ontem e conversou com a imprensa. "Ele me disse "fique tranquila, meu amor, estou bem"", ela contou. Lilianett disse que eles vão casar no dia 7 de novembro e que vão passar a lua de mel em Viña del Mar, a convite da prefeita da cidade.

O recordista

"DON LUCHO", O LÍDER

Líder dos mineiros e último a ser resgatado, Luis Urzua Iribarren - ou "Don Lucho", como era chamado pelos colegas - entrou para a história como o ser humano que mais tempo permaneceu centenas de metros embaixo da terra e sobreviveu para contar a experiência.

Ao subir pela cápsula Fênix 2, o chefe da equipe conversou, diante das câmeras de TV, com postura firme e voz serena, com o presidente chileno, Sebastián Piñera. "Passo meu turno. Espero que isto não volte a ocorrer."

Para colegas mineiros e socorristas, sem o pulso firme e os 31 anos de experiência em mineração de Urzua, dificilmente os 33 teriam capacidade física e psicológica para aguentar os 70 dias de medo e solidão.

Órfão ainda criança e pai de dois filhos, Don Lucho, de 54 anos, disciplinou os subordinados e soube preservar os mantimentos. Logo após a tragédia, todos recebiam de Urzua duas colheres de atum com meio copo de leite. E só. Antes do drama em Copiapó, ele já havia sobrevivido a dois graves acidentes em minas chilenas. Em um deles, dois de seus subordinados morreram. / AP

O socorrista

GONZÁLEZ, O HERÓI DO TWITTER

Manuel González, primeiro socorrista a descer até os 33 mineiros e última pessoa a ser içada da mina, recebeu duas ordens antes de seguir terra abaixo pela Fênix 2. "Vá com Deus e traga os garotos de volta", disse o presidente Sebastián Piñera. "Assim o faremos", respondeu González. A segunda ordem foi para ajudar na descida: "Pense numa praia", disse um colega. González ficou em silêncio.

Mal colocou os pés na cápsula, o chileno, de 46 anos, ganhou milhares de apelidos pelo Twitter. "Chuck Norris latino-americano" e "Rambo 33" foram os mais populares.

Um golpe do acaso fez com que González fosse buscar, a quase 700 metros embaixo da terra rochosa, um de seus maiores rivais. Nos anos 80, o socorrista foi atacante do O"Higgins de Rancagua e enfrentara, em campo, por várias vezes, o clube Atacama, do qual fazia parte Franklin Lobos, um dos 33 mineiros presos.

Ao chegar até os mineiros, foi recebido com choro, gritos e aplausos. Pelo rádio, revelou seu primeiro sentimento: "Estou feliz, mas louco de calor." / EFE

O veterano

GÓMEZ, O MAIS VELHO ENTRE OS 33

Equipes de socorro temiam especialmente pela saúde de Mario Gómez, o mais velho dos 33 mineiros e o 9.º a ser içado. Aos 64 anos (52 deles trabalhando em minas), Gómez sofria de silicose, doença comum entre mineradores provocada pela inalação de partículas de silício. Segundo Jorge Montes, chefe do hospital onde estão os mineiros, o confinamento subterrâneo deixou ainda Gómez com pneumonia, mas ele não corre risco de morrer e deve receber alta "em breve".

Ao sair da mina, ele se ajoelhou e jogou as mãos para o céu. Colocado diante do presidente Sebastián Piñera, economizou nas palavras. "Obrigado", disse, segurando a mão do presidente.

Gómez foi o autor da primeira mensagem dos mineiros aos socorristas, a hoje célebre "Estamos bem, no refúgio, os 33". Pressionado pela mulher, ele prometera que deixaria o emprego na mina de Copiapó "perto do Natal"./REUTERS

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