Mujica ataca Argentina por agir sozinha

Presidente uruguaio, que deixa o poder no dia 1º, gradua com palavrão compromisso argentino com integração regional

RODRIGO CAVALHEIRO, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

23 de fevereiro de 2015 | 02h03

O presidente do Uruguai, José Mujica, recorreu a um palavrão para definir o grau de comprometimento da Argentina com a região, em entrevista ao jornal Perfil publicada ontem. "A integração precisa de um liderança e essa liderança se chama Brasil. Mas a Argentina teria que acompanhar e não acompanha um c...", afirmou. "Ao contrário, é como se tivesse voltado a uma visão de 1960", acrescentou.

O líder uruguaio afirmou que "enquanto há vento de popa a Argentina se esquece da integração. Quando as coisas vão bem, vai para o outro lado". E adicionou que o Brasil faz o mesmo. "Nos países decisivos da América Latina, Brasil, Argentina e México, os dirigentes têm um discurso de integração, mas estão metidos até as orelhas nas contradições do Estado nacional."

Ele lembrou que esteve recentemente num ato do PT com a presidente Dilma Rousseff e o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Ouvi atentamente os discursos e em nenhum momento falaram de integração. E não o fazem por maldade, são o melhor que há." Ele reclamou de ser procurado para ficar a cargo da luta pela integração. "Lula diz 'eu não posso Pepe, não posso porque sou brasileiro (...) há uma forte burguesia paulista, que sem direção política coloniza em vez de integrar'".

O presidente uruguaio deu tom de confidência a uma frase atribuída por ele a Dilma. "Vou contar um segredo: a presidente do Brasil me disse uma vez: 'Ai, Pepe, é preciso ter paciência estratégica com a Argentina'", relatou.

A Argentina fechou há duas semanas 15 acordos comerciais com a China no valor de US$ 21 bilhões. Em troca, cedeu a Pequim privilégios licitatórios, trabalhistas e tributários. Analistas argentinos e brasileiros viram no movimento um sinal de afastamento do país do Mercosul. O governo argentino alegou que a melhoria da infraestrutura é benéfica para o bloco.

Mujica mencionou na entrevista indiretamente o tema. "O Brasil tem aguentado de tudo dos argentinos, de tudo... Mas não quer perdê-los como aliados. A Argentina acaba sendo determinante em tudo. O que a Argentina fizer ou não vai influenciar o rumo que o Brasil tomar", disse o uruguaio.

Mujica concluiu a entrevista na chácara em que vive nos arredores de Montevidéu dizendo que os países mais dedicados à integração são os pequenos, que por necessidade "vão correndo atrás". Dia 1.º, ele passará o poder ao médico Tabaré Vázquez, da mesma coalizão, a Frente Ampla. Tabaré governou o país de 2005 a 2010.

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