Mujica deixa presidência e vai ao Senado

Floricultor e ex-guerrilheiro, presidente do Uruguai não abandonará a carreira política

ARIEL PALACIOS, ENVIADO ESPECIAL, MONTEVIDÉU , O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2014 | 02h05

O presidente José Mujica votou ontem de manhã cedo na capital uruguaia. "Cada um deve votar com sua consciência", afirmou o presidente, cujo caminho até o centro de votação foi filmado pelo cineasta sérvio Emir Kusturica, que está preparando um documentário sobre o líder uruguaio.

Ele chegou ao local com seu já conhecido Fusca azul-claro. Após depositar seu voto na urna, Mujica disse que voltaria para casa para almoçar com sua mulher, a senadora Lucía Topolansky e sua cadela de três patas Manuela, de 17 anos.

Em seguida, o presidente uruguaio, que ganhou fama mundial como o "presidente mais austero do mundo", garantiu que à tarde trabalharia na lavoura de sua chácara, onde cultiva hortaliças e flores.

Ao sair do local, no centro da capital, no entanto, Mujica teve problemas com a ignição de seu Fusca, modelo 1982. Felizmente, no fim, conseguiu arrancar e partiu para casa.

O governo Mujica termina oficialmente no dia 1.º de março. No entanto, ele não abandonará a política e segue na vida pública no Senado. Tudo indicava, ontem à noite, que Mujica seria o senador mais votado das eleições, fato que o tornaria uma referência dentro da Frente Ampla e a segunda figura mais importante do Senado, já que o vice-presidente da República é o presidente da Casa.

Desde que assumiu a presidência, em março de 2010, Mujica sempre recusou-se a morar na residência oficial conhecida como El Prado, optando por ficar em sua chácara, definida por vários visitantes como "um muquifo".

Os analistas indicam que "Pepe", como é chamado popularmente, será uma pedra no sapato de seu correligionário Tabaré Vázquez, caso ele seja eleito presidente no segundo turno, diz 30 de novembro. Na campanha eleitoral, ambos trocaram farpas sobre a equipe econômica e a lei de regulação da maconha, que Vázquez, que é contrário à legislação, ameaça revisar.

Nos anos 60, Mujica foi um dos líderes do Movimento de Liberação Nacional Tupamaros, grupo guerrilheiro que aglutinava socialistas, maoistas e anarquistas com uma visão heterodoxa do marxismo.

Em 1972, foi preso após ser atingido com seis tiros. Dos 13 anos como prisioneiro da ditadura, esteve 11 na solitária. Somente nos dias de bom humor dos carcereiros ele podia ir, uma vez a cada 24 horas, ao banheiro, embora com um capuz e mãos algemadas.

Quando recuperou a liberdade, em 1985, dedicou-se ao cultivo profissional de flores, abandonou os planos de luta armada e aderiu à vida parlamentar. Em 2005, tornou-se o primeiro ex-guerrilheiro a chegar à presidência de uma república na América do Sul. Apesar de seu passado, Mujica é considerado um presidente bem visto pelos mercados, que manteve excelentes relações com o FMI e os Estados Unidos.

O cientista político Adolfo Garcé disse ao Estado que "da época da guerrilha de Mujica ficou apenas o compromisso com os pobres". "A guerrilha, no entanto, também o tornou um homem pragmático, algo que fica evidente em seu comportamento com o empresariado e os mercados", disse.

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