Juan Mabromata/AFP
Juan Mabromata/AFP

Mujica desautoriza vice e assume apoio à entrada de Caracas no Mercosul

Presidente uruguaio rompe silêncio e reafirma posição favorável de Montevidéu à Venezuela

Ariel Palacios, correspondente em Buenos Aires,

04 de julho de 2012 | 21h52

BUENOS AIRES - O presidente uruguaio, José "Pepe" Mujica, disse nesta quarta-feira, 4, que é o "responsável" pelo endosso do governo do Uruguai à entrada da Venezuela no Mercosul como quinto sócio pleno. Com a declaração, ele buscava pôr um ponto final nas afirmações de outros membros do governo - incluindo seu vice e o chanceler - que fizeram críticas à inclusão de Caracas e às negociações que envolveram também as presidentes do Brasil, Dilma Rousseff, e da Argentina, Cristina Kirchner.

 

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A entrada da Venezuela - decidida na sexta-feira na reunião de cúpula de Mendoza - só foi possível graças à suspensão do Paraguai, único país cujo Legislativo ainda não havia aprovado o ingresso venezuelano no bloco. A entrada repentina de Caracas - aproveitando a suspensão do Paraguai em razão do impeachment de Fernando Lugo - vem provocando críticas nos partidos de oposição de Brasil, Argentina e Uruguai, os outros três fundadores do bloco.

Em Montevidéu, o ingresso apressado do país caribenho também provocou divisões na coalizão de governo. A confusão uruguaia teve início na segunda-feira, quando o chanceler Luís Almagro declarou que o país não tinha concordado com a entrada da Venezuela "nessas circunstâncias" - e sustentou que o ingresso de Caracas no bloco ocorreu após um pedido "decisivo" feito pelo governo brasileiro.

Na terça-feira, o vice-presidente Danilo Astori afirmou que a entrada precipitada da Venezuela, sem a aprovação de um dos quatro sócios-fundadores do bloco, o Paraguai, representava a "mais grave ferida institucional do Mercosul".

Astori, na contramão da presidente argentina, Cristina Kirchner - que afirmou que a entrada da Venezuela seria oficializada numa reunião extraordinária no Rio de Janeiro, no dia 31 -, afirmou que, nessa data, o Mercosul "tomará a decisão final". Assim, segundo o vice-presidente uruguaio, a entrada venezuelana ainda não estaria consumada e a decisão poderia ser revertida.

No entanto, Mujica - um ex-guerrilheiro tupamaro famoso por seu pragmatismo - ressaltou, em declarações ao jornal La República, de Montevidéu, que defendeu a entrada da Venezuela no bloco porque "o lado político superava o jurídico". Fazendo mistério, o presidente uruguaio afirmou que na reunião a portas fechadas com Dilma e Cristina surgiram "novos elementos políticos". Mujica explicou o desfecho da conversa. "É verdade que quem pediu essa reunião reservada foi Dilma, mas estivemos de acordo os três."

Mujica, entretanto, defendeu seu chanceler, indicando que "quanto mais baterem nele, mais colado ficará à poltrona do ministério". "Estou satisfeito com ele", resumiu.

Na entrevista ao La República, Mujica também criticou o Senado do Paraguai por ter destituído Lugo da presidência e pela resistência em votar a entrada da Venezuela no Mercosul desde que o assunto foi encaminhado ao Parlamento em Assunção, em 2007.

"Esse é o mesmo Senado que tirou um presidente (Lugo), o substituiu por outro como quem muda de camisa e ignora o pedido de mais de dez chanceleres (da Unasul). Por isso, decidimos não convalidar por mais tempo essa atitude de quem ignorou durante anos mais de 30 milhões de venezuelanos", declarou o presidente uruguaio.

Segundo Mujica, a Venezuela "é muito mais do que um governo". "É uma nação irmã, exportadora de energia e compradora de alimentos. Há muitos anos temos pedido ao Senado paraguaio que permitisse a entrada desse país no Mercosul", afirmou.

 

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