Mujica e Vázquez trocam agressões em campanha

Presidente e o candidato da Frente Ampla, do governo, discutem sobre a Lei da Maconha e outros temas antes das eleições domingo

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE, ENVIADO ESPECIAL / MONTEVIDÉU, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2014 | 02h03

O ex-presidente Tabaré Vázquez, candidato da coalizão Frente Ampla à presidência do Uruguai, tem sofrido com o "fogo amigo" na reta final da campanha para as eleições de domingo. O presidente José Mujica, do mesmo grupo político de Vázquez, criticou o candidato socialista após ele declarar que achava "insólito" um aspecto da Lei da Maconha que permitia a venda da planta em farmácias.

"Problema dele. Se for assim, ele que vá discutir isso com o Parlamento", disse Mujica, que foi ministro da Agricultura do governo Vázquez entre 2005 e 2010, além de ter sido seu sucessor na presidência.

Vázquez também havia irritado Mujica com suas declarações sobre a existência de duas equipes econômicas dentro do atual governo - uma no Ministério da Economia, com presença de funcionários aliados a Vázquez, e outra no Ministério de Planejamento e Orçamento, mais alinhado a Mujica. Vázquez disse que, caso volte à presidência uruguaia nestas eleições, unificará as equipes.

"Vázquez está errado, não está informado", disse Mujica. "Em meu governo não existem duas equipes econômicas. Nós somos abertos, livres. A Frente Ampla não é um curral de pessoas subordinadas."

A Frente Ampla reúne socialistas, democratas-cristãos e comunistas, além de ex-integrantes do Partido Nacional (PN) e do Partido Colorado (PC). Vázquez pertence ao Partido Socialista, o setor mais moderado dentro da coalizão, enquanto Mujica, um ex-guerrilheiro tupamaro, é do Movimento de Participação Popular (MPP).

Em 2009, quando Vázquez era presidente e Mujica o candidato da coalizão, também ocorreram alfinetadas entre os dois líderes. Na ocasião, Vázquez disse que "Mujica simplesmente diz coisas estúpidas com as quais não concordo".

Vázquez declarou recentemente que não pretende colocar Mujica no comando de nenhuma pasta. O atual presidente é candidato ao Senado.

Vázquez também irritou muitos governistas com sua proposta de subsidiar estudantes da rede pública que queiram estudar em escolas particulares. A proposta, que não aparece no programa da Frente Ampla, era desconhecida de outros líderes do partido.

O próprio candidato a vice de Vázquez, Raúl Sendic, admitiu ontem que não tinha "detalhes" da ideia. No entanto, ele ressaltou que a proposta de um "vaucher" escolar "seria uma ferramenta transitória que permitiria dar cobertura educativa nos lugares onde a infraestrutura pública não é suficiente".

Sindicatos de professores da rede pública reclamaram da proposta de Vázquez, indicando que o ex-presidente pretenderia "privatizar" a educação pública no Uruguai.

Maioria parlamentar. Os principais candidatos estão muito preocupados em não conseguir maioria parlamentar no primeiro turno. Vázquez, da Frente Ampla, que governou o Uruguai nos últimos dois mandatos com maioria, alertou o eleitorado sobre essa necessidade "para evitar que as coisas sejam feitas de forma lenta" em seu eventual governo.

Vázquez, de acordo com uma pesquisa da consultoria Interconsult, tem 42% das intenções de voto. O principal candidato de oposição do Partido Nacional, Luis Lacalle Pou, conta com 32%. Pedro Bordaberry, do Partido Colorado, obteve 14%. Outros partidos menores, de esquerda, ecologistas e de centro, contam juntos com 7% das intenções de voto.

Para vencer no primeiro turno nas eleições uruguaias, um candidato presidencial precisa obter maioria de 50% mais um dos votos válidos. "Aqui, a única certeza é que haverá um segundo turno e será entre Tabaré Vázquez e Lacalle Pou", disse ao Estado o analista e sociólogo Alain Mizrahi, do Grupo Radar de consultores.

De acordo com ele, caso a Frente Ampla consiga 45% no primeiro turno, em razão dos votos brancos, ela poderia conseguir uma apertada maioria parlamentar.

"Isso poderia causar um cenário no qual uma eventual vitória de Lacalle Pou no segundo turno das eleições presidenciais, colocaria seu novo governo diante de um Parlamento com maioria de uma hipotética oposição da Frente Ampla", avaliou.

Fiel da balança. Lacalle Pou declarou que "partido algum terá maioria predeterminada" e fez um apelo ao "diálogo" no Parlamento em caso de vitória. Analistas indicam que, em caso de vitória do candidato opositor no segundo turno, o terceiro colocado nas pesquisas, Bordaberry, aceitaria respaldar o líder do Partido Nacional no Parlamento.

"Durante o mês de novembro, Bordaberry pode convocar seus eleitores a votar em Lacalle Pou no segundo turno", afirmou Mizrahi. "As maiorias parlamentares favorecem práticas perversas", afirmou ontem o Partido Independente, de centro-esquerda, que conta com 3% das intenções de voto.

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