Mujica exalta laços com Argentina após criticar Kirchners

Presidente uruguaio afirma que 'nada pode separar' os dois países, um dia depois que chamar Cristina de 'velha' e Nestor de 'caolho'

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

06 de abril de 2013 | 02h08

"Nada nem ninguém poderá nos separar." Com essa frase, o presidente do Uruguai, José Mujica, tentou ontem apaziguar os ânimos no outro lado do Rio da Prata, em Buenos Aires, após suas declarações de quinta-feira nas quais chamava a presidente argentina, Cristina Kirchner, de "uma velha" que era "pior" que o "caolho", em referência ao estrábico ex-presidente Néstor Kirchner, morto em 2010.

Horas antes, em Buenos Aires, o chanceler Héctor Timerman havia convocado o embaixador do Uruguai na Argentina para expressar que os comentários de Mujica eram "inaceitáveis" e haviam sido pronunciados por uma pessoa à qual a presidente Cristina havia considerado como "amigo". No entanto, Timerman ressaltou que a presidente Cristina não faria declarações sobre os comentários de seu colega uruguaio.

As relações entre o Uruguai e a Argentina estão tensas há uma década (mais informações nesta página). No entanto, desde 2009 a relação ficou mais tensa com o crescente protecionismo comercial argentino, que restringe a entrada de produtos feitos no Uruguai.

"Para nós o assunto está encerrado", disse ontem em Montevidéu sobre a frase de Mujica, a primeira-dama e senadora Lucia Topolansky, companheira de Mujica desde o início dos anos 70, quando ambos integravam a guerrilha dos Tupamaros.

Um dos principais integrantes do gabinete, Raúl Sendic, presidente da estatal petrolífera uruguaia Ancap, avaliou o cenário com pragmatismo: "a única coisa que isso implica é que vamos ter mais trabalho (na relação com a Argentina)".

O ex-presidente Julio María Sanguinetti afirmou ontem que Mujica deveria "pedir desculpas" para "encerrar esse episódio constrangedor": "é bom concluir isso logo, pois senão a coisa continua repercutindo e isso não será bom para ninguém". No entanto, Sanguinetti, que foi presidente do Uruguai duas vezes (1985-90 e 1995-2000), avaliou que "Mujica frustrou-se porque a relação com a Argentina não foi boa como ele havia apostado. Não houve respostas positivas por parte de Buenos Aires". Anteontem, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ao visitar o Uruguai, defendeu a integração do Mercosul e declarou que "nunca viu ninguém como Mujica".

A polêmica pelas declarações de Mujica teve um efeito musical imediato, já que o grupo de "quarteto" (gênero popular de ritmo musical) uruguaio Mauro Sebatián Lecornel lançou na web em poucas horas a canção Esta vieja es peor que el tuerto (Esta velha é pior que o caolho). A letra critica Mujica e alerta os políticos a olhar ao redor antes de fazer declarações e constatar se existem "bisbilhoteiros".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.