Reprodução/ YouTube
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Mulher bate em chefe com esfregão após assédio na China; assista

Funcionária virou sensação na internet pela forma como respondeu às mensagens de assédio enviadas pelo superior

Tiffany May, The New York Times

15 de abril de 2021 | 10h00

HONG KONG - Foi uma surra e tanto. Uma funcionária pública no nordeste da China que se queixou de receber mensagens de assédio de seu chefe foi gravada batendo nele com um esfregão. A ação provocou uma discussão sobre a persistência do assédio no trabalho e transformou a mulher em sensação da internet.

No vídeo de 14 minutos, a funcionária -mais tarde identificada pelo sobrenome, Zhou- é vista atirando livros no rosto do chefe (identificado como Wang) e jogando água nele, além de atingi-lo com o esfregão.

Ele é visto escondendo o rosto atrás das mãos, tentando se desculpar e dizendo que estava brincando quando lhe enviou as mensagens de texto. Não está claro exatamente quando ocorreu o incidente, mas canais de notícias locais disseram que a mulher prestou queixa na polícia na semana passada, acusando Wang de assédio, e o vídeo começou a circular na internet nesta semana.

As imagens foram vistas milhões de vezes, com muitos usuários das redes sociais desfrutando o que, segundo eles, é uma demonstração incomum de resistência contra uma figura autoritária, em um país com proteções limitadas no local de trabalho contra assédio sexual.

Muitos usuários demonstraram apoio à mulher, que recebeu elogios por modificar o equilíbrio de poder e foi chamada de defensora da justiça e de guerreira das artes marciais.

Lu Pin, uma importante ativista feminista chinesa, disse que muitas pessoas viram o vídeo como um canal para a raiva acumulada pela ausência geral de responsabilização dos assediadores e de recursos disponíveis para os tribunais ou a polícia. Muitas vítimas de assédio se sentem impotentes para denunciar e temem ser desacreditadas ou sofrer retaliação se o fizerem.

"Na maior parte das vezes, as mulheres são obrigadas a ficar em silêncio porque é difícil que um assédio sexual seja investigado", disse Lu em entrevista na terça-feira, 13. "Esta mulher assumiu a própria defesa. O fato de seu comportamento estar chamando tanta atenção é um reflexo de que não há meios melhores."

A mídia estatal identificou o homem como o vice-diretor de uma agência de alívio à pobreza no distrito de Beilin em Suihua, cidade na província de Heilongjiang, que fica 1.100 quilômetros a nordeste de Pequim.

Depois que uma investigação interna descobriu que ele tinha "problemas de disciplina na vida", foi demitido do cargo conforme as medidas disciplinares do Partido Comunista, segundo a agência de notícias estatal Xinhua. A funcionária não foi punida, e autoridades disseram que ela tem uma "doença mental" não especificada. Não foram dados mais detalhes.

Nem o homem nem a mulher puderam ser contatados para comentar.

A China adotou uma lei em 2005 que proíbe o assédio sexual e dá às vítimas o direito de prestar queixa dos chefes. Vários regulamentos se seguiram nos últimos anos, colocando sobre os patrões o ônus de "evitar e reprimir" o assédio sexual. Poucos locais de trabalho, porém, adotaram políticas robustas contra isso, segundo Darius Longarino, professor no Centro Paul Tsai sobre a China na Escola de Direito de Yale.

"Muito poucos processos foram movidos contra assediadores, e menos ainda obtiveram sucesso", disse ele. "Se o caso se resume ao depoimento das testemunhas, o tribunal muitas vezes decide que não há evidências suficientes para provar que houve o assédio."

As vítimas podem até se tornar alvo de processos. Em 2019, após uma mulher na cidade de Chengdu prestar queixa na polícia dizendo que foi assediada por um colega, este a processou. Embora o caso tenha sido arquivado, a mulher teve que fazer um pedido de desculpas em um grupo de mensagens no trabalho, no qual ela tinha falado sobre o assédio, de modo a desfazer os "efeitos negativos" para seu colega.

Na gravação em vídeo do episódio do esfregão, Zhou diz que Wang lhe enviou mensagens de texto indesejadas em três ocasiões e que outras mulheres no escritório tinham recebido atenção semelhante. Ela pode ser vista e ouvida fazendo um telefonema e acusando seu chefe de agressão.

Enquanto está ao telefone, ela diz que já tinha relatado seus atos à polícia. Segundo a mídia local, a polícia disse que registrou o relato contra o chefe na semana passada e estava investigando as denúncias. Autoridades do governo em Suihua e Beilin, assim como a polícia de Beilin, não responderam a pedidos de comentários. Ativistas pediram mais proteções do sistema nesses casos.

"Como outras vítimas que não atraíram a atenção do público podem ser ajudadas?", disse Lu. "Essas perguntas só foram levantadas, e não há respostas." O caso de Zhou é ajudado pelo fato de que ela tem uma gravação das confissões do chefe, disse Longarino. Em muitas situações, diz ele, "não há vídeo viral".

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