AFP PHOTO / DOMINIQUE FAGET
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Mulher-bomba instaura uma nova era da jihad na França

Ao detonar seu cinturão de explosivos para não ser capturada, a mulher que morreu nesta quarta-feira, 18, em ação policial em Saint-Denis instaurou uma nova era na França e se somou a uma longa lista de mulheres-bomba

O Estado de S. Paulo

18 de novembro de 2015 | 16h59

PARIS - Ao detonar seu cinturão de explosivos para não ser capturada, a mulher que morreu nesta quarta-feira, 18, em ação policial em Saint-Denis instaurou uma nova era na França e se somou a uma longa lista de mulheres-bomba. Ao amanhecer, quando os policiais derrubaram a porta do apartamento ao norte de Paris em que se encontrava com quatro homens, a jovem optou por se explodir. 

"Este caso é, sobretudo, uma prova de determinação", explica à agência France-Presse Fatima Lahnait, pesquisadora e autora do relatório Mulheres-bomba, a jihad feminina"O doutrinamento e recrutamento são tais que ela preferiu morrer antes de ser detida. Fazendo isso, contribuiu para a luta. O sexo pouco importa, mas o fato de ser mulher seguramente multiplicará o impacto de seu ato na sociedade", afirma.

Embora nos últimos anos várias mulheres tenham alcançado as "terras da jihad", na Síria e no Iraque, são poucas as que optam pelo martírio. Entre elas, Muriel Degaugue, uma jovem belga convertida ao islã que se explodiu em novembro de 2005 no Iraque durante a passagem de um comboio americano.

Desejo de morte. Ao preferir a morte à redenção, a suicida de Saint-Denis não tentou - ao contrário dos que se detonaram na noite de sexta-feira em Paris, deixando ao menos 129 mortos - perpetrar um atentado suicida contra quem estava por perto.

"A participação de mulheres em atos devastadores de assassinato e dor sempre provocou uma mistura de estupefação, repugnância e interesse público", escreveu Lahnait. "Como compreender o desejo de morte dessas mulheres que aspiram a morrer, mas também a matar?", prossegue.

"A religião muçulmana condena formalmente o suicídio", acrescentou. "Mas isso vem sido frequentemente ignorado, especialmente por libaneses, palestinos, Al-Qaeda e chechenos", explicou.

Em 1985, uma libanesa de apenas 16 anos, Sana Jyadali, lançou seu carro carregado de explosivos contra um comboio israelense, matando dois soldados. Foi a primeira de uma larga lista de mulheres candidatas ao martírio em seu país. O mesmo já aconteceu em Israel, Turquia, Índia, Paquistão, Uzbequistão, Chechênia e Iraque.

A partir desta data até 2006, "mais de 220 mulheres-bomba se sacrificaram, o que representa quase 15% do número total contabilizado", indicou a investigadora em seu informe.

Meninas. Entre elas está a iraquiana Sajida al-Rishawi, que tentou se explodir entre os convidados de um casamento palestino em um grande hotel de Amã, a capital da Jordânia. 

Os chefes da Al-Qaeda, que a consideraram uma heroína, pediram por sua liberdade. Após a morte do piloto jordano Moaz al-Kasasbeh, queimado vivo em uma jaula pelo grupo jihadista Estado Islâmico (EI), foi enforcada em fevereiro.

Atualmente, é outro grupo jihadista, o nigeriano Boko Haram, o que mais recorre às mulheres-bomba, chegando a enviar meninas à morte, entre as quais a mais jovem teria 7 anos. Nestes casos, frequentemente os chefes têm o controle da exploração da carga que transportam, que ativam à distância mediante telefones móveis.

"Em Maiduguri" (grande cidade do norte da Nigéria), "os atentados suicidas são cotidianos", disse à France-Presse Marc-Antoine Pérouse de Montclos, investigador do Instituto de Investigação para o Desenvolvimento (IRD). "São especialmente mulheres e meninas que vêm após a morte de seus maridos e pais, abatidos em confrontos com o Exército nigeriano", explica.

A vingança pela perda de um parente também tem sido o motivo das suicidas chechenas, as famosas "viúvas negras", que provocaram dezenas de vítimas.

Enquanto ímãs dos grupos jihadistas prometem aos candidatos ao martírio as maravilhas do paraíso, especialmente as famosas 72 virgens, não há nada disso para as mulheres-bomba: "O que podem lhes prometer é o reencontro, no paraíso, com um ente querido, um marido desaparecido, por exemplo", precisa Fatima Lahnait. / AFP 

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