Mulher-bomba levou polícia a localizar o primo Abaaoud

Jovem, que morreu ao acionar cinturão de explosivos, teve chamadas de telefone celular rastreadas

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2015 | 22h38

Prima do principal mentor dos atentados de Paris, Hasna Ait Boulahcen, de 26 anos, foi o elo que permitiu ao Ministério Público e à polícia da França localizar e abater Abdelhamid Abaaoud na madrugada de quarta-feira. Jihadista que aderiu ao Estado Islâmico e recebeu treinamento na Síria, a jovem se suicidou acionando um cinturão de explosivos, sem causar mais vítimas. Mas, antes disso, ela se mostrou um fardo ainda mais pesado para a organização: foi ao rastrear seu celular que as autoridades puderam desbaratar a célula terrorista.

A identificação dos restos mortais da mulher-bomba que acionou explosivos em Seine-Saint-Denis ainda está em curso, e o Ministério Público não é taxativo em afirmar que ela é a mulher que aparece em vídeos da operação policial dialogando aos gritos com um policial. Na gravação, um agente pergunta: “Onde está o teu companheiro?”. Ela responde com um grito: “Não é meu companheiro!”. Então a bomba explode, jogando pela janela restos mortais e destroços do apartamento.

Por todas as gravações feitas desde o rastreamento de seu celular, e também pelo reconhecimento visual de testemunhas que a teriam visto entrar e sair do imóvel na Rue Corbillon, no centro da cidade, restam poucas dúvidas para os investigadores. Nascida em Hauts-de-Seine, na periferia noroeste de Paris, Hasna viveu na cidade de Clichy-sous-Bois, a mesma onde em 2005 eclodiram as revoltas contra as forças de ordem.

Sua família se espalha por duas outras cidades, uma delas da periferia de Paris, Aulnay-sous-Bois, onde, em 2007, também ocorreram revoltas violentas contra a polícia. O Estado esteve ontem na Cité 3000, uma série de condomínios de baixa renda situados na Rue Edgar Degas, onde vive sua mãe. Também tentou contato com um de seus parentes, Yousseff Ait Boulahcen, mas não obteve respostas. Horas depois, a polícia isolou o acesso ao bairro e levou parentes e amigos da jovem para depoimentos e prisões temporárias.

Até aqui, muito pouco se sabe sobre o passado da jovem mulher-bomba de Saint-Denis além do fato de ela ter nascido, vivido e morrido na periferia da capital. Um período, entretanto, interessa às autoridades: o tempo em que passou no exterior, supostamente em campos de treinamento da Síria, antes de retornar à casa da mãe, em Aulnay-sous-Bois, há seis meses. Esse tempo teria se transcorrido a partir de 11 de junho, quando ela postou em sua página de Facebook a intenção de partir para a Turquia, e depois para a Síria. Na rede social, ela teria manifestado sua admiração por Hayat Boumeddiene, a mulher de outro terrorista francês, Amedy Coulibaly, autor dos ataques a uma policial e ao supermercado judeu de Porte de Vincennes, em Paris, em janeiro.

Outro dado já tornado público sobre a jovem é sua participação no desfecho da ação policial de quarta-feira. Ao ter seu telefone monitorado pela Direção Geral de Segurança Interior (DGSI), o serviço secreto interior da França, Hasna levou à identificação do local exato em que estava escondido o terrorista mais procurado da Europa. Mas a origem das escutas é mais prosaica: a polícia a investigava pela prática de tráfico de drogas – comum entre membros de redes jihadistas, que usam o dinheiro para alimentar suas ações terroristas.

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