Mulher de dissidente detalha prisão domiciliar

'Eu acho que Kafka não conseguiria escrever algo mais absurdo do que isso', diz mulher de Liu, prêmio Nobel da Paz

CLÁUDIA TREVISAN , CORRESPONDENTE / PEQUIM, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2012 | 23h54

Mantida há dois anos em prisão domiciliar, a mulher do Prêmio Nobel da Paz de 2010, Liu Xiaobo, teve um ataque de choro ontem, quando duas jornalistas da Associated Press conseguiram entrar no apartamento onde vive, em Pequim. "Eu acho que Kafka não conseguiria escrever algo mais absurdo do que isso", disse, sobre seu confinamento.

Liu Xia não foi acusada nem condenada por nenhum crime, mas é proibida de deixar sua casa na capital chinesa, onde vive sem acesso à internet e sem telefone. Policiais vigiam a entrada do local constantemente e a acompanham quando ela sai uma vez por semana para comprar mantimentos e visitar seus pais.

As repórteres da Associated Press aproveitaram uma breve ausência dos guardas no horário de almoço para entrar no local. Segundo sua descrição, Liu Xia chorava e tremia de maneira incontrolável enquanto descrevia sua situação.

"É tão absurdo. Eu achava que era uma pessoa preparada emocionalmente para responder às consequências da entrega do prêmio a Liu Xiaobo", disse. Mas em seguida, ressaltou: "Eu realmente nunca imaginei que depois que ele ganhasse, eu não seria capaz de sair de casa".

A detenção domiciliar sem amparo legal ou judicial é usada com frequência pelo governo chinês para calar os críticos do regime. O ativista Chen Guangcheng foi mantido durante 19 meses confinado em sua casa na Província de Shandong, mesmo depois de cumprir pena de 4 anos e 3 meses de prisão à qual havia sido condenado em 2006.

Em abril, Chen conseguiu escapar e se refugiou na Embaixada dos Estados Unidos em Pequim. Depois de negociação entre os governos dos dois países, ele conseguiu autorização para deixar a China e ir para Nova York com a família.

Poeta, fotógrafa e pintora, Liu Xia é levada uma vez por mês para ver seu marido, condenado em 2009 a 11 anos de prisão sob acusação de subversão. Liu Xiaobo foi um dos autores da Carta 08, documento que defende reformas democráticas e o fim do regime de partido único, divulgado em 2008.

Na segunda-feira serão completados dois anos da cerimônia de entrega do Nobel da Paz ao dissidente chinês. Liu Xiaobo foi "representado" no evento por uma cadeira vazia, já que ninguém de sua família deixou a China para receber o prêmio.

Liu Xiaobo é o único vencedor de um Nobel que está na prisão. Nesta semana, 134 laureados divulgaram carta na qual pedem a libertação do dissidente chinês. "Essa flagrante violação do direito básico ao devido processo legal e à liberdade de expressão deve ser pública e vigorosamente confrontada pela comunidade internacional", escreveram.

Na segunda-feira, o chinês Mo Yan estará em Estocolmo para receber o Prêmio Nobel de Literatura. O escritor é o primeiro chinês que não está preso nem exilado a ser agraciado com a premiação e o único celebrado por Pequim. Os três vencedores anteriores eram opositores do regime. Antes de Mo Yan, a mais recente premiação havia sido dada a Liu Xiaobo.

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