Mulher de líder chinês sai como vilã

Gu Kailai foi acusada de envolvimento na morte de britânico, que levou à derrocada do marido

O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2012 | 03h01

Em uma nação que prefere que as esposas dos líderes políticos não sejam mais do que insípidos ornamentos, Gu Kailai tinha uma personalidade brilhante. Casada com Bo Xilai, o membro do Politburo cuja queda, meses atrás, ainda abala o Partido Comunista, ela costumava divertir-se de maneira até mesmo agressiva. Seus admiradores vangloriavam-se de que a advogada de destaque e inglês fluente era a resposta da China a Jacqueline Onassis.

Ao acusá-la formalmente, na quinta-feira, de envenenar no final do ano passado um empresário britânico, o governo chinês a colocou em um contexto chinês familiar: a megera insidiosa, sedenta de sangue, cuja fome de riquezas acabou com a promissora carreira do marido.

Embora ninguém tenha apresentado provas convincentes para contestar a versão oficial de que madame Gu, 53, teve um papel preponderante na morte do empresário, muitos se perguntam se os líderes do partido não estariam usando o seu caso para desviar o repúdio público da corrupção e abuso de poder que, segundo os críticos, seu marido encarnaria.

Bo, que foi expulso em abril do Politburo, e a respeito do qual nunca mais se ouviu falar, até o momento continua sendo julgado por um sistema de justiça paralelo reservado aos membros do partido. Seu destino não foi mencionado no breve comunicado que anunciou o processo de sua esposa.

"Em toda a história da China, sempre que há uma luta política, sempre que alguém deve cair, eles culpam a esposa", disse Hung Huang, editor de uma revista de moda cuja mãe, ex-professora de inglês de Mao Zedong, passou dois anos em prisão domiciliar acusada de colaborar com a Gangue dos Quatro.

Tradição. A história chinesa está repleta de lendas sobre mulheres espertas cujas ambições desmedidas as levaram à ruína - e às vezes também aos homens da sua vida. Jiang Qing, a esposa de Mao, levou grande parte da culpa pela década desastrosa da Revolução Cultural, concepção amplamente difundida num processo que se tornou um show de televisão e eletrizou a nação. As criancinhas do curso elementar chinês sabem até hoje recitar a lista de crimes da imperatriz viúva Cixi, retratada como uma líder gananciosa, assassina, cujas maquinações contribuíram para derrubar a dinastia Qing.

Não se sabe ao certo se Bo teve participação na morte do inglês, Neil Heywood, mas seu ex-chefe de polícia, Wang Lijun, e outros declararam às autoridades que ele tentou obstruir a investigação. Embora o destino de Bo possa ser decidido logo, o fato de ter sido excluído das acusações sugere para alguns observadores que provavelmente não será implicado no elemento mais incriminador do escândalo, porque se acredita que os promotores não deverão realizar processos separados para a mesma morte.

Susan L. Shirk, especialista em política chinesa, disse que talvez os representantes do partido relutem a acusar Bo de participar do acobertamento do assassinato dada a sua popularidade entre os chineses e para uma facção influente da liderança.

"Eles precisam tratar deste problema de forma a proteger a reputação de Bo Xilai", disse Shirk, ex-funcionária do Departamento de Estado que leciona na Universidade da Califórnia, em San Diego. "Eles não querem que a roupa suja da política da elite seja lavada em público porque na realidade não sabem a ameaça potencial representada pelos seguidores de Bo". / THE NEW YORK TIMES

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