Mulher de opositor soube de prêmio ao lado de policiais

Comitê norueguês ligou à Liu Xia para avisá-la que seu marido ganhara; não está claro se dissidente foi informado da conquista

Cláudia Trevisan, O Estado de S.Paulo

09 de outubro de 2010 | 00h00

A mulher de Liu Xiaobo, Liu Xia, estava acompanhada de policiais em sua casa quando soube que seu marido havia ganhado o Prêmio Nobel da Paz. A notícia veio pelo celular, no qual ela escutou o anúncio da premiação que era assistido por um amigo. Liu Xia não fala inglês, mas identificou o nome "Liu Xiaobo" no que escutava, apesar da péssima pronúncia chinesa do presidente do Comitê Nobel Norueguês, Thorbjorn Jagland.

"Eu ouvi Li Xiaobo, mas não podia acreditar que ele havia realmente ganhado o prêmio", disse uma eufórica Liu Xia por telefone ao Estado logo depois da premiação. Ela disse só ter se convencido quando seu irmão ligou dando a notícia.

Ontem não estava claro se o dissidente já havia sido informado de sua escolha. Segundo Liu Xia, eles não podem falar ao telefone e se encontram apenas uma vez por mês. Quando deu a entrevista ao Estado, ela estava arrumando as malas para ser levada à província de Liaoning, onde Liu Xiaobo está preso.

Liu Xia acredita que o Nobel da Paz irá "definitivamente" exercer pressão pela libertação de seu marido, condenado a 11 anos de prisão em dezembro de 2009. Mas o advogado do dissidente, Shang Baojun, não estava tão confiante. "Eu espero que ele seja libertado antes por causa do prêmio, mas na realidade isso não vai acontecer."

Logo depois do anúncio, a Anistia Internacional pediu a libertação de Liu e de todos os "presos de consciência" da China. "O prêmio só pode fazer diferença real se levar a uma maior pressão internacional pela libertação de Liu e de outros inúmeros prisioneiros de consciência que estão definhando nas prisões chinesas por terem exercido seu direito de liberdade de expressão", afirmou Catherine Baber, vice-diretora da Anistia Internacional para Ásia-Pacífico.

A Human Rights Watch também reiterou o apelo pela libertação de Liu Xiaobo e afirmou que sua prisão e posterior condenação tiveram motivação política e não atenderam a requisitos mínimos de justiça e as regras do devido processo legal.

Liu Xia disse que ainda não sabe quem receberá o prêmio, que inclui a entrega de US$ 1,5 milhão ao vencedor. "Vamos ver isso depois."

Bloqueio total. A máquina da censura chinesa saiu a campo ontem para tentar impedir que os cidadãos do país tivessem acesso a informações sobre a entrega do Prêmio Nobel da Paz a Liu Xiaobo, que não foi divulgada pela imprensa do país. Logo depois da premiação, tornou-se impossível enviar mensagens de celular e e-mails que contivessem as palavras "Liu Xiaobo" ou "Prêmio Nobel da Paz" - em chinês ou inglês.

Fóruns online criados para discutir o assunto eram deletados em uma corrida de gato e rato entre os internautas e os milhares de censores empregados por Pequim. Buscas com o nome do dissidente traziam como resultado a mensagem de que a página não pôde ser aberta. Pesquisas com "Prêmio Nobel da Paz" retornavam com uma lista de links, mas era impossível abri-los. Mas os censores demoraram. A CNN e a BBC só foram cortadas quatro minutos depois do discurso do presidente do Comitê Nobel Norueguês, Thorbjorn Jagland, que anunciou a premiação de Liu.

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