REUTERS/Yoseph Amaya/File Photo
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Mulher de Zelaya tenta levar esquerda de volta ao poder em Honduras

Ex-primeira-dama, casada com presidente deposto em 2009, é favorita para tirar do poder o partido que domina política local

Luiz Raatz, O Estado de S.Paulo

28 de novembro de 2021 | 05h00
Atualizado 28 de novembro de 2021 | 19h11

Doze anos depois de ter sido expulsa do palácio presidencial de pijamas e sob a mira de fuzis, a família Zelaya pode voltar ao poder neste domingo, 28, em Honduras, em uma eleição marcada por temores de violência política, e a lembrança de uma fraude eleitoral na votação para presidente em 2017. 

Analistas preveem uma disputa apertada entre Xiomara Castro, mulher do ex-presidente, e o candidato do Partido Nacional, o prefeito de Tegucigalpa, Nasri Asfura, apesar de a última sondagem, publicada em outubro, dar ampla vantagem à ex-primeira-dama. Se vencer, ela se tornará a primeira mulher a presidir Honduras.

Xiomara é mulher de Manuel Zelaya, que foi presidente entre 2006 e 2009, quando foi deposto por um golpe após tentativas de mudar a Constituição. No dia do golpe, Zelaya foi retirado de sua casa ainda de pijamas e levado para uma base aérea nas imediações da cidade, e depois para o aeroporto da capital, onde embarcou com destino à Costa Rica.

Entre 2009 e 2010, Zelaya passou quatro meses na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa. Em setembro, de volta ao país às escondidas, Zelaya viveu na representação diplomática brasileira por quatro meses. Ele passou o Natal e o Réveillon de 2009 na embaixada, com a mulher, Xiomara Castro, e uma comitiva de treze pessoas. O governo hondurenho chegou a fazer um cerco militar à Embaixada. No fim de janeiro de 2010, Zelaya deixou a Embaixada e foi para a República Dominicana com um salvo-conduto.

De acordo com o levantamento, Xiomara tem 38% das intenções de voto, ante 21% de Asfura. “As pesquisas indicam que Xiomara tem boas chances de vencer. Mas, se a disputa for apertada, há possibilidade de o Partido Nacional fraudar ou manipular o resultado”, disse ao Estadão Maureen Meyer, vice-presidente de programas para Direitos Humanos do Washington Office on Latin America (Wola). 

“As reformas eleitorais deste ano foram muito tímidas, o que aumentou a preocupação sobre a lisura da eleição. O monitoramento da OEA e da União Europeia será importante, mas a desconfiança da população pode levar à violência”, afirmou Meyer.

Os anos no poder do Partido Nacional contribuíram para o enfraquecimento das já combalidas instituições democráticas hondurenhas. Nos dois mandatos do atual presidente, Juan Orlando Hernández, e de seu antecessor, Porfírio Lobo, cresceram as denúncias de corrupção e de vínculo de autoridades com o narcotráfico.

O irmão de Hernández – Tony – responde a um processo nos EUA por tráfico de cocaína, no qual o presidente também é suspeito. Segundo testemunhas do julgamento de Tony, em Nova York, Juan Orlando teria dado uma força na carreira criminal de Tony.

Acusação de fraude em 2017

A reeleição de Juan Orlando, em 2017, mostra o poder do Partido Nacional em Honduras. A Constituição hondurenha, de 1982, vedava terminantemente um novo mandato. Em 2009, quando Zelaya anunciou que pretendia mudá-la, acabou preso e enviado para a Costa Rica, sob a acusação de “desobediência constitucional”. 

Mas, com Hernández, as coisas foram diferentes – e a Justiça liberou a reeleição. Na madrugada da apuração, no entanto, ele perdia para o opositor Salvador Nasralla, mas um apagão interrompeu a contagem. Na volta, para a surpresa geral, o presidente havia sido reeleito. Desta vez, observadores internacionais prometem avaliar de perto a votação. “O golpe de 2009 enfraqueceu a democracia e a situação piorou depois da reeleição de Hernández”, afirmou Meyer.

As denúncias de corrupção e a impopularidade de Hernández impediram que ele tentasse alterar as regras mais uma vez. Recentemente, ele se comprometeu a entregar o cargo em janeiro, aconteça o que acontecer na eleição deste domingo. Pressionado, Asfura, candidato do Partido Nacional, tentou se distanciar do presidente. “Nunca toquei no dinheiro do imposto de vocês”, disse em um discurso na TV local.

A crise econômica levou milhares de hondurenhos a se lançarem na perigosa rota para os Estados Unidos. Em 2020, pelo menos 20 mil deixaram o país. “Honduras tem um dos índices mais altos de pobreza e desigualdade da América Latina e a pandemia e desastres naturais pioraram isso”, lembra Meyer. “Mudança política, reformas econômicas e o combate à corrupção e ao narcotráfico podem mudar isso.”

Para destronar o Partido Nacional, Xiomara, que pela terceira vez tenta a presidência, unificou a oposição e moderou o discurso, aproximando-se do empresariado, prometendo políticas sociais sem afugentar investidores. “Após anos marcados por corrupção e criminalidade, a maioria dos hondurenhos está descontente”, disse Michael Shifter, do grupo Diálogo Interamericano. “Mas não se pode subestimar a máquina do Partido Nacional e a aversão de alguns setores da economia a Xiomara.” 

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