REUTERS/Ricardo Moraes
REUTERS/Ricardo Moraes

Exército da Venezuela abre fogo, mata 2 e fere 15 na fronteira do Brasil

Pelo menos sete venezuelanos estão internados em estado grave em hospital de Boa Vista; governo brasileiro faz reunião de emergência e confirma envio de ajuda humanitária, que chega hoje a Pacaraima, na divisa com país vizinho

Luiz Raatz, Enviado Especial / Boa Vista, Enviado Especial / Boa Vista, Roraima

22 de fevereiro de 2019 | 12h05
Atualizado 23 de fevereiro de 2019 | 01h38

O primeiro dia de fechamento da fronteira entre Brasil e  Venezuela terminou nesta sexta-feira, 22, com um saldo de 2 mortos e 15 feridos, dos quais 7 foram transportados para Boa Vista. O líder opositor venezuelano, Juan Guaidó, criticou o episódio. Neste sábado, a oposição deve tentar entregar toneladas de ajuda humanitária na fronteira brasileira e colombiana. Na noite desta sexta-feira, Caracas anunciou o fechamento da fronteira com a Colômbia no Estado de Táchira

Apesar da violência do lado venezuelano, militares brasileiros avaliam que a movimentação na fronteira é normal e esperam que a situação se acalme nas próximas semanas. Há um temor, porém, de que o fechamento prejudique a estabilização do fluxo migratório obtida nos últimos meses com a Operação Acolhida. Sem poder entrar pela passagem oficial, os refugiados tendem a buscar trilhas na fronteira seca, as chamadas “trincheiras”, como ocorreu hoje em Pacaraima.

“Com a fronteira fechada, deve aumentar o número de venezuelanos que entram no Brasil sem passar pela triagem na fronteira”, avalia o tenente-coronel Alyson Mendonça. “Com isso, a demanda deve aumentar muito também e essas pessoas não necessariamente passarão de cara pela Operação Acolhida.”

Desde 2016, mais de 130 mil refugiados entraram em Roraima. O impacto em um dos Estados mais pobres do Brasil foi imediato. Os serviços públicos chegaram perto do colapso. As praças de Boa Vista e as pequenas ruas de Pacaraima foram tomadas por venezuelanos que fugiam da fome, sem trabalho ou lugar para ir, e passaram a recorrer a bicos e à mendicância. Com o tempo, a xenofobia aumentou, provocando confrontos entre brasileiros e venezuelanos.

Com a intervenção do governo federal, no ano passado, pouco a pouco a situação foi se acalmando. “A gente conseguiu acalmar a situação ao convencer a população que cuidar bem do imigrante é cuidar bem do brasileiro: com ele vacinado, não há surto de sarampo. Com ele interiorizado, ele encontra empregos em outros lugares”, disse Mendonça.

Hoje, a fronteira entre Brasil e Venezuela amanheceu fechada. Um posto de cavalaria da Guarda Nacional Bolivariana (GNB), em Santa Elena de Uairén, foi bloqueado e impediu que moradores da cidade atravessassem para Pacaraima. 

Na comunidade indígena de Gran Sabana, nos arredores de Santa Elena, soldados venezuelanos abriram fogo contra civis que tentavam manter uma trilha aberta na fronteira seca – duas pessoas morreram. Após o ataque, uma ambulância venezuelana, acompanhada de uma médica, teve a passagem liberada na fronteira para buscar atendimento, primeiro em Pacaraima, depois em Boa Vista. 

A primeira vítima foi identificada como Zorayda Rodríguez, de 42 anos. O segundo morto é Rolando Garcia, que seria marido de Zorayda. Após o ataque, houve confrontos entre policiais e moradores da cidade, que teriam sido reprimidos com bombas de efeito moral. “A maior parte das pessoas apoia a ajuda humanitária e queremos a nossa fronteira aberta”, disse a porta-voz da comunidade indígena, Carmen Elena Silva. “Isso é ajuda, não é guerra.”

Os sete feridos foram atendidos hoje no Hospital Geral de Boa Vista. Segundo balanço da Secretaria Estadual de Saúde de Roraima, os sete estão em estado grave, sendo três em situação mais crítica. 

Ainda de acordo com a secretaria,  cinco pacientes foram encaminhados ao Centro Cirúrgico da Unidade. Os outros dois estão em observação no Grande Trauma. Todos foram trazidos para Boa Vista em ambulâncias da própria Venezuela.

Além disso, dois venezuelanos foram atendidos no Hospital Délio Tupinambá, em Pacaraima. Eles tinham escoriações leves e já receberam alta.

Reação

O líder opositor venezuelano, Juan Guaidó, condenou o ataque. “É constitucional matar indígenas?”, questionou. Por meio de um porta-voz, o Ministério de Comunicações da Venezuela afirmou que não poderia comentar o caso. Horas depois, no entanto, Maduro, foi ao Twitter apoiar a Força Armada Nacional Bolivariana. “A nossa FANB está mobilizada em todo o território nacional para garantir a paz e a defesa integral do país”, escreveu. “Máxima moral, máxima coesão e máxima ação. Venceremos!”

Ainda hoje, em Boa Vista, um avião da Força Aérea Brasileira chegou com ajuda humanitária para ser entregue hoje na fronteira da Venezuela. Os 19 lotes de arroz, 14 de açúcar, dezenas de sacos de leite em pó e de caixas com medicamentos foram armazenados em um hangar na Base Aérea de Boa Vista à espera de transporte para cruzar a fronteira. 

Em Brasília, o porta-voz da Presidência da República, Otávio do Rêgo Barros, confirmou que a operação de entrega sairá amanhã de Roraima e não há previsão de término da ação. Segundo ele, o governo brasileiro tentará entregar 200 toneladas de alimentos. 

Os Estados Unidos "condenaram energicamente" o uso da força militar venezuelana, nesta sexta-feira, disse a Casa Branca, por meio de nota, após as mortes dos índios.  

 
As doações serão transferidas por caminhões venezuelanos com motoristas venezuelanos de Boa Vista a Pacaraima – 180 km em viagem de 4 horas. A segurança do transporte será feita pela Polícia Rodoviária Federal. “A operação tem caráter exclusivamente de ajuda humanitária, não tendo interesse do País no emprego de quaisquer outras frentes neste momento”, afirmou Barros.

Mais cedo, foi realizada uma reunião do gabinete de crise do governo para tratar da Venezuela. O governador de Roraima, Antonio Denarium (PSL), participou do encontro por vídeo conferência. No Palácio do Planalto, estiveram reunidos o ministro da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, além de representantes dos ministérios da Defesa, Relações Exteriores, Infraestrutura, Minas e Energias. 

Questionado sobre a presença de mísseis venezuelanos próximos à fronteira do Brasil, Barros disse que o governo não confirma a informação – publicada mais cedo pelo site DefesaNet. Ele também não quis comentar sobre eventual reação militar a um ataque. “Não conjecturamos poder de combate.” / COM CAMILA TURTELLI E MARIANA HAUBERT

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.